Liderança da classe médica, Sandro Penna diz que as condições de trabalho, o salário e a falta de um plano de carreira afastam os profissionais do serviço público
O governo federal justifica a proposta de importação de médicos estrangeiros, da abertura de vagas e residências nas universidades e na obrigatoriedade de estudantes trabalharem dois anos no Sistema Único de Saúde (SUS) com a ideia de que faltam profissionais para atender a toda a demanda brasileira.
Segundo o presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Uberaba (SMCU), pediatra Sandro Penna Correa, a Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza um médico para cada mil habitantes. No Brasil, a proporção é de 1,7 médico por habitante. O problema, segundo ele, é a má distribuição por conta de estruturas desiguais.
Nos anos anteriores, a administração de Uberaba sempre reclamou que os médicos não atendiam ao chamado dos processos seletivos para trabalhar no SUS. Para Sandro Penna, o problema está no salário que a Prefeitura Municipal oferece aos profissionais por 20 horas semanais. “O próprio governo federal não vai conseguir colocar médicos para trabalhar no interior sem estrutura mínima e sem condições de salário. O médico que vai para o interior vai levar a família e se abdicar de uma melhor condição de vida, por isso ele tem que ter uma contrapartida financeira”, afirma. O presidente ressalta que o salário de R$10 mil, mais ajuda de custo, que pode chegar até a R$30 mil, pelo programa “Mais Médicos”, é insuficiente para uma carga horária de 40 horas, pois o profissional pode ganhar o mesmo trabalhando menos em grandes centros.
Penna admite que, de todas as medidas apresentadas, o “Mais Médicos” é a que está entre as mais acertadas, mas a oferta financeira é só o primeiro passo. Segundo ele, é preciso que o governo se preocupe em criar melhores condições de trabalho para os médicos. O problema é que o governo não consultou a categoria antes de anunciar mudanças na saúde. “O salário e a ajuda de custo são bons, mas não adianta um médico ganhar R$10 mil para atuar em uma cidade onde ele não poderá resolver nada. Por esse mesmo rendimento, o médico poderá trabalhar em outro lugar, mas com melhor estrutura. Além disso, ninguém sabe como vai ser, vai haver plano de carreira? A escolha será por concurso? Por contrato? Ou é emprego temporário?”, questiona.
Uma alternativa apresentada pelos conselhos de Medicina para resolver o problema da má distribuição de médicos pelo país é a criação de um plano de carreira pelo governo federal. “O sonho de todo médico é dedicar-se a um só emprego e não trabalhar em três ou quatro lugares, correndo risco em estradas porque dá plantão em outros municípios. Uberaba não oferece isso. A Prefeitura não encontra médico porque ninguém quer trabalhar por salário básico de R$1.500, podendo chegar a R$3 mil, por contrato, ou seja, sem estabilidade, pois não há concurso. Não há plano de carreira em longo prazo”, completa.