Fé, devoção e acontecimentos marcantes explicam a procura pelas sepulturas de Chico Xavier e Alfeu Aparecido
Em Uberaba, duas sepulturas se destacam entre as mais procuradas por visitantes no Cemitério São João Batista. Uma delas guarda os restos mortais do médium Francisco Cândido Xavier, conhecido nacional e internacionalmente pelo trabalho de psicografia e caridade. A outra pertence ao taxista Alfeu Aparecido de Souza, assassinado em 1957, cuja história atravessou gerações e transformou seu túmulo em um local associado a pedidos, orações e relatos de graças alcançadas.
A informação foi registrada pelo Jornal da Manhã em diferentes coberturas do Dia de Finados. Em 2021, a reportagem apontou o túmulo de Chico Xavier como o mais visitado da cidade, seguido pelo de Alfeu. A mesma ordem já havia sido observada em 2015, quando o então diretor do Departamento de Cemitérios, Jamir Messias de Freitas, confirmou a procura pelas duas sepulturas.
A movimentação não se restringe ao feriado de Finados. Os dois túmulos integram a memória afetiva e religiosa de Uberaba e continuam despertando o interesse de moradores e turistas que passam pelo principal cemitério municipal.
Chico Xavier: o médium que atrai visitantes de todo o país
Nascido em Pedro Leopoldo, em 2 de abril de 1910, Francisco Cândido Xavier chegou a Uberaba em 1959. Na cidade, consolidou sua trajetória como um dos principais nomes do espiritismo brasileiro, com trabalhos de psicografia, atendimento a pessoas que buscavam conforto espiritual e ações de assistência aos mais necessitados.
Ao longo da vida, psicografou 451 livros, traduzidos para diferentes idiomas. Os direitos autorais das obras eram cedidos gratuitamente a editoras espíritas, e parte da renda obtida com sua publicação era destinada a instituições de caridade.
Chico morreu em 30 de junho de 2002, aos 92 anos. A data também ficou marcada pela conquista do pentacampeonato mundial de futebol pela Seleção Brasileira, episódio que se tornou parte da memória em torno de sua despedida. Desde então, o túmulo no Cemitério São João Batista passou a receber milhares de visitantes, entre espíritas e pessoas de outras crenças.
O interesse pela trajetória do médium também movimenta o turismo religioso e cultural. Em reportagem publicada em julho de 2023, o Jornal da Manhã estimou que cerca de 20 mil pessoas visitavam Uberaba anualmente em busca de acolhimento espiritual e para conhecer os lugares relacionados à vida de Chico.
Esse fluxo também aparece nos números do Memorial Chico Xavier. Segundo dados divulgados pela Fundação Cultural de Uberaba em junho de 2026, o espaço recebeu mais de 70 mil visitantes desde a reabertura, em junho de 2024. Somente em 2025, foram 36.244 visitas, das quais 22.020 foram realizadas por pessoas de outras cidades e estados.
É importante diferenciar os números: a visitação do Memorial não corresponde à quantidade de pessoas que passam pelo túmulo do médium. Os dados, porém, ajudam a dimensionar o interesse que a trajetória de Chico Xavier continua despertando.
Alfeu Aparecido: o taxista que se tornou símbolo de fé popular
O crime aconteceu na noite de 24 para 25 de dezembro de 1957, durante uma corrida de táxi. Na ocasião, Alfeu foi abordado por dois homens que pretendiam roubar o veículo. O jovem foi levado para uma região próxima à Capelinha do Barreiro e assassinado com sete tiros e diversas facadas.
A edição de 26 de dezembro de 1957 do jornal Lavoura e Comércio registrou o episódio, que provocou grande comoção na cidade. Alfeu tinha apenas 20 anos.
Com o passar dos anos, a sepultura do taxista começou a receber pessoas que procuravam o local para fazer pedidos, agradecer por graças alcançadas e buscar proteção. A devoção popular fez com que ele passasse a ser conhecido como uma espécie de santo popular, embora não tenha reconhecimento oficial da Igreja Católica.
Em reportagem publicada pelo Jornal da Manhã em março de 2020, a historiadora Aparecida Manzan explicou como a memória do jovem se transformou em uma crença compartilhada por moradores. “Ele foi assassinado no dia em que não era ele que iria trabalhar, saiu no lugar de um colega na noite de Natal”, relata.
Manzan também destacou que a história de Alfeu ultrapassou a dimensão do acontecimento policial. Segundo ela, durante uma visita de pesquisa ao cemitério, pessoas se aproximavam para contar experiências e relatar graças que acreditavam ter recebido por intercessão do taxista.
A tradição também aparece em relatos de visitantes publicados pelo JM em 2015. Na ocasião, uma moradora contou que costumava levar flores e fazer orações no túmulo de Alfeu em agradecimento por pedidos atendidos, entre eles um relacionado a um período em que estava desempregada.
As histórias de Chico Xavier e Alfeu Aparecido mostram como diferentes trajetórias podem transformar sepulturas em pontos de referência para a população. Em comum, os dois permanecem presentes na memória de Uberaba e atraem pessoas motivadas pela fé, pela admiração e pela curiosidade histórica.
Embora as reportagens de 2015 e 2021 apontem Chico e Alfeu como os dois túmulos mais visitados do Cemitério São João Batista, não há, nas informações consultadas, um levantamento atualizado que permita estabelecer um ranking oficial de visitação em 2026.
Ainda assim, os registros históricos e os relatos publicados ao longo dos anos mostram que a procura pelos dois locais vai além das homenagens tradicionais do Dia de Finados.