O reajuste do salário-mínimo traz reflexos diretos para empregados e empregadores. Desde o dia 1º de janeiro de 2026 está valendo o valor de R$ 1.621 para empregados com carteira assinada. Na avaliação do economista Marco Antônio Nogueira, o acréscimo de R$ 103 amplia o poder de compra, mas continua longe de garantir condições dignas ao trabalhador assalariado, ao mesmo tempo, em que pressiona custos das empresas e as contas públicas.
Nogueira pontua que, apesar da correção que considera a inflação mais a variação do PIB (Produto Interno Bruto) de dois anos atrás, o valor ainda é insuficiente para assegurar condições de vida adequadas ao trabalhador. Em contrapartida, para quem está na outra ponta, o impacto pode ser significativo. Para empresas, especialmente microempreendedores e micro e pequenas empresas, que são as principais empregadoras do país, o reajuste e o aumento dos custos com pessoal devem ser repassados, ao menos parcialmente, ao consumidor.
O economista destaca que o valor do salário-mínimo ainda traz outros reflexos, para além do eixo empregado-empregador. “Nas áreas de serviços e nos contratos formais ou informais que formam preços com base no salário-mínimo, haverá um aumento temporário, com reflexos na inflação. Por outro lado, o reajuste acima da inflação amplia o poder de consumo. Como as classes E, D e C, para as quais o salário-mínimo é uma importante fonte de renda, têm baixa propensão à poupança, esse recurso tende a ser direcionado a gastos essenciais, como alimentação, transporte e despesas domésticas. O salário-mínimo acaba gerando um efeito multiplicador na economia”, explica Nogueira.
O setor produtivo, especialmente pequenas e médias empresas, pode ser afetado de duas formas: pelo aumento dos custos com pessoal e encargos e, possivelmente, pela elevação da demanda por seus produtos e serviços. Nogueira pondera que, caso não consigam repassar o reajuste aos preços, essas empresas podem enfrentar redução da lucratividade, com reflexos na capacidade de investimento e até na geração de empregos.
“O aumento do salário-mínimo pode estimular o consumo e aquecer a economia. Como a maioria das classes sociais beneficiadas utiliza quase toda a renda para consumo, supermercados e o comércio em geral tendem a ser diretamente impactados”, destaca Nogueira.
Em relação à desigualdade social, o economista avalia que os efeitos serão limitados. “A redução da desigualdade é muito pequena ou quase nula. Cerca de 80% dos trabalhadores recebem até dois salários-mínimos, e utilizam essa renda basicamente para a sobrevivência. No caso do INSS, onde a maioria recebe até um salário-mínimo, a desigualdade acaba sendo potencializada. Para cada R$ 1 de aumento do salário-mínimo, a Previdência gastará R$ 420 milhões em 2026”, conclui.
Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), aproximadamente 61,9 milhões de pessoas terão rendimentos diretamente influenciados pelo novo valor. O grupo inclui aposentados e pensionistas do INSS, trabalhadores formais, autônomos, empregados domésticos e pequenos empregadores.
Contudo, o reajuste também pressiona as contas públicas. A elevação do salário-mínimo aumenta os gastos da Previdência Social e de outros benefícios vinculados ao piso nacional, impondo ao governo o desafio de conciliar a valorização da renda da população com o controle das despesas obrigatórias, em um cenário de atenção permanente às metas fiscais.