Ainda nos dias atuais é possível ouvir que pai não troca fraldas, não dá banho em criança, não cozinha ou alimenta os filhos, porque essas ações fazem parte do papel de mãe. O fato é que os homens não foram e não são treinados para ser pais, pois falta representatividade nesse meio. Felizmente, a legião de homens que decidiram assumir o verdadeiro papel de pai, mesmo sem saber muito bem como é isso, vem crescendo significativamente com o passar dos anos. Se antes um pai presente e participativo na vida dos filhos era sinônimo de elogio, diante da raridade dos casos, atualmente a presença e participação na educação dos pequenos já se tornaram obrigação dos homens que são pais. Psiquiatras, psicólogos, educadores e cientistas de toda ordem vêm constatando no mundo todo que a presença dos pais faz uma diferença fundamental na formação de um ser humano. Além disso, vale lembrar que um pai participativo pode melhorar a vida da mãe, do filho e dele mesmo, tornando a vida em família muito mais harmoniosa e equilibrada. A aceitação das diferenças numa sociedade cada vez mais plural, além do desafio, se torna uma necessidade e expressão de amor e carinho. Hoje, quando celebramos mais um Dia dos Pais, o Jornal da Manhã publica depoimentos de alguns exemplos de pais que revolucionam a teoria tradicional e assumem seus papéis e são protagonistas de suas próprias histórias.
“Vivo para cuidar da minha filha...”
Marcus Vinícius de Souza, 63 anos
Pai de Ana Laura, de um ano e cinco meses
“Fui casado aqui [em Uberaba], mas fiquei viúvo e me mudei para o Estado do Tocantins. Lá, me casei de novo e morei por 11 anos. Separei-me da minha família lá e voltei para Uberaba. Conheci a mãe da Ana Laura e nós tivemos um relacionamento, mas três meses depois ela estava grávida e queria tirar a criança. Falei: ‘Não vai tirar, não, não vou deixar’. Ela disse então que quando [a criança] nascesse, eu é que iria cuidar e eu disse: ‘Tudo bem, eu cuido’.
O tempo foi passando e, no dia de ela nascer, a mãe disse que não queria nem ver. Viu só na hora que nasceu e dois dias depois eu a levei à casa dela e trouxe a Ana Laura comigo já. E dois meses depois elas se encontraram no Fórum, quando fomos resolver a papelada para a guarda definitiva.
De lá para cá, dei sorte que aposentei, porque eu trabalhava como motorista de caminhão. Agora eu vivo para cuidar dela, da minha filha. Vim embora do Tocantins, aluguei uma casinha e, com o salário que ganho como aposentado, vivemos uma vidinha até mais ou menos.
[Emocionado] A gente nunca sabe o que Deus vai reservar para nós, mas eu a recebi com muito amor e muito carinho. Para mim, a minha filha é um presente de Deus. É uma criança maravilhosa, que todo mundo gosta. Eu a deixo na creche, para ela poder brincar com outras crianças. Essa semana teve reunião e ela está em primeiro lugar em tudo e eu fiquei muito comovido de saber disso. Faço o possível para cuidar muito bem dela. Lavo, passo, faço comida, troco fralda e a enfeito para sairmos. Vivo para ela. Antigamente, gostava de tomar uma cerveja, não tomo mais. Não saio sozinho, quando saio, é com ela, e mesmo assim para irmos à igreja.
Hoje estou sozinho com minha filha. Não vou dizer que não queria arrumar uma pessoa como companheira. Eu quero arrumar uma pessoa boa, mas tem que ser uma pessoa que goste mais da minha filha do que de mim. Agora, as mudanças na minha vida foram acontecendo conforme a Ana Laura ia precisando. Hoje, saio de manhã para procurar um serviço, mas ainda não achei nada. Depois eu lavo roupa, limpo a casa, faço comida e, quando ela chega, está tudo prontinho. Virou rotina e faço com a maior satisfação.
Esse Dia dos Pais vai ser bom demais. Tenho duas filhas do meu primeiro casamento, uma de 42 e outra de 34, que moram em Ribeirão Preto, mas não tive muita oportunidade de estar com elas porque trabalhava como caminhoneiro. Hoje, as pessoas falam que faço tudo isso porque sou diferente. Não sou diferente, acho que um pai, quando gosta dos filhos e quer o bem deles, faz tudo isso como algo normal. Não posso tirá-la da minha vida para viver de outra maneira, porque foi Deus que me deu a Ana Laura de presente.”
“Vamos aceitar, vamos acatar a escolha dele...”
Ricardo de Oliveira, 57 anos
Pai de Wender Thiago Oliveira, homossexual, 32 anos
“Temos um relacionamento muito bom, sempre tivemos. Acho que como pai, tanto o Wender quanto a Deydelaine [irmã de Wender] não podem reclamar de mim [risos], porque sempre dei apoio a eles, em tudo que precisaram. Quando ficamos sabendo da homossexualidade do meu filho, eu não tive muita barreira, não, aceitei bem, até mesmo antes da mãe dele. A mãe dele [Marina Aparecida Ricetto de Oliveira] chorou e tal, mas falei para ela: ‘Antes a gente receber uma notícia dessa [de que o filho é homossexual] do que descobrir que o filho é um drogado, um assassino ou um ladrão. Vamos aceitar, vamos acatar a escolha dele e vamos apoiá-lo no que for preciso’.
A única coisa que sempre pedi a ele foi que não arrumasse alguém para judiar dele ou algo do tipo, porque sabemos que o preconceito, neste sentido, é muito grande. Existem pessoas que não acreditam, mas há, sim, muito preconceito. Hoje, graças a Deus, lidamos muito bem com isso.
No último dia 28 ele se casou com Waldir Santana e eu o acompanhei até o altar. Fomos eu, minha esposa e meu neto. A família compareceu e todos deram o maior apoio. A única coisa que faltou foi chamar o jornal para fazer fotos e noticiar esse casamento. Seria importante para a luta contra o preconceito em relação aos homossexuais, tanto homens quanto mulheres.
Meu papel como pai sempre foi muito assim. Sempre ajudei em tudo e sempre cuidei dos meus filhos, desde pequenos. Ajudei muito minha esposa nos afazeres, não deixava o cuidado só para ela. Quando ela tinha que sair para trabalhar, eu é que ficava com eles e cuidava de tudo. O mesmo ocorria nas minhas folgas, sempre cuidei. Acho muito importante os pais participarem da educação dos filhos e essa convivência mais próxima entre pai e filhos. Hoje, se o pai não se aproxima do filho e não o trouxer para junto de você, a bandidagem ou o mundo das drogas é quem vai abraçá-lo. Os filhos querem liberdade, mas ao mesmo tempo também querem alguém firme ali do lado deles, apoiando sempre e dando limites.
A comemoração do Dia dos Pais vai ser com a família unida. Aliás, nós sempre temos um grupo de pais e filhos que sempre se reúne aos sábados ou aos domingos. Acho que isso é muito bom para os filhos, porque essa proximidade os deixa mais protegidos e mais à vontade para se abrir. No caso de filho homossexual, é muito importante essa proximidade, temos que sempre estar ao lado dele, não podemos abandonar. Afinal, é meu filho e nunca vai deixar de ser, só por ser homossexual, o amo do mesmo jeito.
A mensagem que deixo para os pais que têm filhos homossexuais é a seguinte: abracem seus filhos, amem seus filhos, não se importando com a opção sexual deles. Traga-os para junto de vocês, deem o apoio necessário que eles precisam. Nunca esbravejem ou os coloquem na rua, vai ter quem os abrace, e quando vocês quiserem se arrepender, pode ser tarde.”
“Somos amigos, muito amigos...”
Mauro Sérgio Gomes da Silva, 46 anos
Pai da Maria Luiza, de 12 anos
“Quando me separei, a Maria Luiza tinha, mais ou menos, dois anos de idade e foi meio complicado no começo, mas hoje é uma coisa natural. E quando a mãe dela foi embora, eu tinha que acordar de noite, fazia mamadeira ainda, trocava fralda, etc. Tive que mudar totalmente a minha rotina de sair. Meus amigos eram casados e os lugares que eles frequentavam era fazenda ou rancho. Eu sempre ia a esses encontros, mas isso mudou. Deixei de ir às festas à noite e shows até ela ir ganhando mais idade, mas mesmo assim sempre procurei ir a lugares em que ela também poderia ir.
Hoje nós vivemos mais tranquilos, eu e ela, porque agora ela já está com 12 anos. Conversamos bastante, somos amigos, muito amigos. E construir essa relação de amizade e confiança é até difícil de falar, pois é algo que precisa ser construído no dia a dia. Nessa idade, hoje ela é mais reservada, mas mesmo assim ela me conta tudo. Ela ainda não virou mocinha e, até então, minha maior preocupação é essa, mas sempre conversamos sobre tudo.
Nesse ponto, a escola ajuda muito. Ela estuda na mesma escola particular até hoje, então, todas as professoras sabem da história dela e também vão explicando algumas coisas para ela, quando é necessário. Sempre morei perto da minha mãe, a umas três quadras, então, ela também me dá suporte. Minha preocupação é saber o que fazer e o que falar quando for necessário, mas conversamos muito abertamente, e ela se tornou muito adulta. É uma menina muito responsável. Depois da escola, ela chega em casa, toma um lanche ou saímos para comer alguma coisa, mas sempre dentro de 22h ou 23h já estamos em casa para assistir televisão.
Na verdade, não foi muito difícil, não, achei que ia ser bem mais complicado. Analisando o passado, eu vejo hoje que foi muito mais leve do que eu pensava. Cheguei a pensar que não ia aguentar, mas deu tudo certo. Quando a mãe foi morar em Uberlândia e arrumou outro namorado, a situação ficou diferente, mas nunca deixei ela perder o contato com a mãe. Então, nas férias eu a levo em Uberlândia, mas sempre nos falamos por celular. Nunca deixei ela odiar a mãe, pelo contrário. Hoje ela tem outros três irmãos e mantém contato com eles sempre, porque ela [a ex-mulher] sempre será mãe da Maria Luiza. No fim, tudo isso me fortaleceu e me fez mais responsável, mudou minha vida completamente e só tenho a agradecer a Deus.
Os pais que ficam distantes dos filhos perdem. A Maria é muito carinhosa comigo, porque somos muito próximos. Quantas noites passei acordado por causa de dor de ouvido ou para sair de madrugada para levá-la ao pronto-socorro. Tudo isso e muito mais nos tornaram próximos. E os pais que se separam e acham que ser pai é só pagar pensão alimentícia perdem esse carinho e essa amizade construídos no dia a dia.
Uma situação que enfrentamos no início era quando as coleguinhas da Maria vinham dormir aqui em casa. Eu avisava às mães que eu morava sozinho com a minha filha, mas todas elas se adaptaram, porque esse papel do pai presente vem mudando cada vez mais. Iguais a mim ainda vão existir muitos outros pais por aí. Hoje ela está com 12 anos e já começa a querer sair sozinha, mas neste caso sou meio careta. Ela não tem senha no celular, eu gosto de saber com quem ela está falando, e ela tem toda liberdade de contar as coisas para mim. Agora, quanto à questão de sair, ainda vai chegar a hora. É preciso dar um passo de cada vez.”