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Tentativas de suicídio entre adolescentes acendem alerta em Uberaba

Faixa de 15 a 19 anos representa quase 18% das notificações de violência autoprovocada entre 2020 e 2022

Débora Meira
Publicado em 08/09/2026 às 14:09Atualizado em 08/09/2026 às 15:17
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Quase 18% das notificações de tentativas de suicídio registradas em Uberaba entre 2020 e 2022 envolveram adolescentes de 15 a 19 anos. O dado, que integra o boletim municipal de violência autoprovocada, reforça a necessidade de atenção à saúde mental durante a adolescência, período marcado por mudanças emocionais, sociais e familiares. 

Para a psicóloga Laura Justino, um dos desafios na prevenção é que o adolescente nem sempre consegue reconhecer ou verbalizar que está sofrendo. A busca por autonomia e a construção da própria identidade podem fazer com que pedir ajuda seja interpretado pelo jovem como uma exposição de vulnerabilidade. “É muito difícil dele admitir que ele está sofrendo e que ele pode sentir como se ele estivesse sendo vulnerável. Então, como se ele estivesse sendo exposto. Muitos adolescentes têm medo de serem julgados, de decepcionar os pais, de não serem compreendidos”, explica. 

Segundo a especialista, o sofrimento também pode aparecer antes mesmo de o adolescente conseguir dar nome ao que está sentindo. Cansaço, irritação, tristeza e perda de interesse por atividades que antes davam prazer podem ser algumas das mudanças percebidas pela família. 

Por isso, Laura orienta que pais e responsáveis conheçam a rotina e o comportamento habitual dos filhos. Mais do que observar um episódio isolado, a atenção deve estar voltada para alterações que permanecem ao longo do tempo. “Alguns sinais podem ser o isolamento social, a perda de interesse por atividades que ele gostava, alteração no sono ou no apetite, queda no rendimento escolar”, afirma. A psicóloga também cita irritabilidade constante, mudanças bruscas de humor, ansiedade, dificuldade de concentração e sintomas físicos, como dores de cabeça e de estômago. 

Ela ressalta, porém, que um único comportamento não significa necessariamente que exista um transtorno mental ou risco de suicídio. O que deve chamar atenção é a combinação de fatores e o impacto dessas mudanças na vida do adolescente. “O que chama atenção é a intensidade, a duração, a combinação dos sinais e, principalmente, o quanto essas mudanças estão interferindo na vida do adolescente”, explica. 

Mudanças envolvendo comportamentos de risco, agressividade, impulsividade e uso problemático de álcool ou outras drogas também merecem atenção. Para a psicóloga, a proximidade dos pais é fundamental para que essas alterações sejam percebidas. 

De acordo com Laura, o sofrimento pode se manifestar de diferentes maneiras e não necessariamente por meio de uma conversa direta sobre saúde mental. Por isso, ela defende que os adultos não esperem que o adolescente chegue espontaneamente para dizer que precisa de ajuda. “Não devemos esperar que o adolescente vai dizer que ele está sofrendo, que ele vai conseguir assumir. Isso é muito difícil. Muitas das vezes, o pedido de ajuda vai aparecer por outras formas”, afirma. 

Nesse contexto, falas relacionadas à morte ou ao desejo de desaparecer devem ser levadas a sério. Frases como “quero desaparecer” ou “não quero mais viver”, segundo a especialista, não devem ser tratadas como simples desabafo ou como uma característica da idade. 

O dado de Uberaba, para Laura, também precisa ser analisado para além da estatística. As 1.425 notificações de tentativas de suicídio registradas entre 2020 e 2022 representam situações concretas de sofrimento que precisam de acompanhamento. “Mais do que a gente olhar para esse número apenas como uma estatística, a gente precisa pensar nas histórias e nos sofrimentos que existem por trás dele”, afirma. 

Para ela, a prevenção precisa começar antes de uma situação de crise. Isso significa criar espaços para que adolescentes possam falar sobre sentimentos, conflitos, relacionamentos, bullying, sexualidade, identidade, expectativas, medo e frustrações. “É fundamental criar espaços em que os adolescentes possam falar sobre sentimento, conflito, relacionamento, bullying, sexualidade, identidade, expectativa, fracasso, medo, antes que esses sofrimentos todos cheguem a um nível de desespero”, destaca. 

Quando os pais percebem mudanças no comportamento, a orientação é evitar transformar a conversa em uma cobrança ou interrogatório. Laura recomenda começar pelo que foi observado, demonstrando preocupação e disponibilidade. “Eu notei que você está mais quieto ultimamente, estou preocupada, quero que você saiba que eu estou aqui se você quiser conversar”, exemplifica. 

Outro cuidado é não tentar resolver imediatamente o problema apresentado pelo adolescente. Para a psicóloga, escutar e acolher devem vir antes dos conselhos. “Às vezes o mais importante é escutar mais e tentar solucionar menos. Quando um adolescente finalmente consegue falar, geralmente a primeira reação dos adultos é tentar dar conselho, tentar corrigir, apresentar uma solução. Não precisa ser primeiro”, afirma. Frases que minimizam o sofrimento, como dizer que determinada situação “é só uma fase” ou que “todo mundo passa por isso”, podem dificultar ainda mais a comunicação. 

Em vez disso, a recomendação é transmitir segurança e disponibilidade. “Eu quero entender o que você está sentindo”, “você não precisa resolver isso sozinho” e “a gente pode procurar ajuda juntos” são exemplos citados pela psicóloga. 

Ela também alerta que respeitar o tempo do adolescente não significa ignorar mudanças importantes. O jovem pode não querer conversar imediatamente e, nesses casos, os pais podem oferecer outras possibilidades, como procurar um psicólogo ou outro adulto de confiança. “O objetivo tem que ser você construir uma ponte e não arrancar uma confissão”, resume. 

Se as mudanças forem intensas, persistentes ou começarem a prejudicar a rotina, o responsável deve procurar avaliação de um profissional de saúde mental, mesmo que o adolescente inicialmente demonstre resistência. Em situações de risco de suicídio, a orientação muda: não se deve esperar que o jovem queira conversar ou aceite ajuda espontaneamente. É necessário buscar atendimento profissional imediatamente e não o deixar sozinho diante de uma situação de risco. 

Para Laura, a principal mensagem aos pais é que o acolhimento não precisa começar somente quando o adolescente pede ajuda. “A gente não precisa esperar que o adolescente comece a pedir ajuda para começar a oferecer acolhimento. A saúde mental vai ser construída nas conversas do dia a dia, na escuta, no vínculo e na sensação de que existe um adulto disponível ali para ajudar sem julgamento”, afirma. 

No Setembro Amarelo, a discussão sobre saúde mental na adolescência, portanto, passa não apenas pela identificação de situações de crise, mas também pela construção cotidiana de relações em que o jovem se sinta seguro para falar quando não estiver bem.

(Foto/Divulgação)

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