Psicólogo aponta atrasos, irritabilidade, pedidos de dinheiro e queda no rendimento como indícios de perda de controle
O alerta é do psicólogo Sérgio Marçal, da Coordenação de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde de Uberaba (Foto/Reprodução)
A compulsão por apostas on-line nem sempre é percebida imediatamente. Antes de as dívidas se tornarem conhecidas, familiares podem notar mudanças no comportamento, na rotina e até no desempenho profissional de quem perdeu o controle sobre os jogos. O alerta é do psicólogo Sérgio Marçal, da Coordenação de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde de Uberaba.
Em entrevista ao programa Pingo do J, o profissional explicou que atrasos, pedidos frequentes de dinheiro, irritabilidade e queda no rendimento podem estar entre os sinais de que as apostas deixaram de ser uma atividade recreativa.
Segundo Sérgio, o comportamento pode começar a chamar atenção em situações aparentemente desconectadas das apostas. A pessoa pode passar a chegar atrasada ao trabalho, apresentar dificuldades de relacionamento ou demonstrar preocupação constante com dinheiro. “Não dá bom dia, está atrasando os processos, não está tendo uma relação boa com a equipe, de vez em quando pede dinheiro emprestado para alguém. Está estranho, fora dos eixos”, explica.
A disponibilidade permanente das plataformas pelo celular também pode dificultar a percepção de que existe um problema. As apostas podem ser acessadas durante diferentes momentos do dia, inclusive durante o trabalho ou em casa.
A compulsão não atinge apenas quem aposta. Conforme o problema avança, familiares podem ser envolvidos nas consequências financeiras e emocionais.
É comum, por exemplo, que parentes emprestem dinheiro ou assumam compromissos para tentar impedir que a pessoa enfrente cobranças ou outras consequências das dívidas.
Sérgio chama atenção para o dilema enfrentado por quem convive com o jogador. A tentativa de ajudar pode, em algumas situações, acabar mantendo o ciclo. “Ela também é doente. O familiar fala: ‘só mais uma vez’, fica naquele dilema entre socorrer e estar fomentando a postura, ou rechaçar e, se eu não ajudar, o que vai acontecer?”, disse.
Por isso, a família também pode precisar de orientação para entender como agir diante da compulsão, sem simplesmente assumir as consequências financeiras das apostas.
A preocupação deve aumentar quando a pessoa percebe que não consegue interromper as apostas, passa a esconder o comportamento ou começa a comprometer relações pessoais, trabalho e vida financeira.
Em Uberaba, pessoas que perderam o controle sobre as apostas podem procurar gratuitamente o CAPS AD. O atendimento pode ser buscado por demanda espontânea, sem necessidade de encaminhamento prévio.
A rede municipal também mantém um grupo terapêutico específico para pessoas com Transtorno do Jogo. O acompanhamento é definido conforme a situação de cada paciente e pode incluir atendimentos individuais e em grupo.
A tentativa de recuperar o dinheiro perdido com novas apostas também merece atenção. Em julho, o Procon Uberaba alertou ao Jornal da Manhã que insistir em novas apostas para cobrir prejuízos pode ser um indicativo de desenvolvimento do jogo compulsivo.
O órgão orientou que as apostas não sejam encaradas como investimento ou complemento de renda e recomendou que o consumidor estabeleça limites de tempo e dinheiro antes de jogar. Também desaconselhou o uso de empréstimos, cheque especial ou cartão de crédito para apostar.
As plataformas, por sua vez, devem disponibilizar mecanismos de proteção, como ferramentas de limitação de gastos, pausa temporária e autoexclusão.
Diante da percepção de perda de controle, a recomendação é interromper as apostas, utilizar os mecanismos de bloqueio disponíveis e procurar ajuda especializada.
Além do atendimento presencial na rede pública, o Ministério da Saúde disponibiliza atendimento remoto pelo Meu SUS Digital, com consultas por videoconferência com profissionais de saúde mental para adultos que apresentam problemas relacionados a jogos on-line.