“Não renunciarei”
Num rápido pronunciamento na tarde dessa quinta-feira, o presidente Michel Temer garantiu: “Não renunciarei!”. Soou como uma reprise da dramática história da teimosia de ex-presidente Dilma quando estava no olho do furacão da Lava-Jato. Na verdade, Temer não renunciou ao foro privilegiado, a exemplo de sua antecessora. Mas está irremediavelmente perdido. Não tem mais qualquer capacidade de agir e de promover as reformas necessárias ao crescimento econômico do país. Gritos de “fora Temer”, manifestações populares nas ruas, pedidos de abertura de processo de impeachment já se avolumam na Câmara dos Deputados e, assim, todos os capítulos dessa novela política começam a se repetir.
Direito à gravação
No seu pronunciamento, Temer exigiu (esse foi o tom) que a gravação da conversa que ele teve com Joesley Batista venha a público e tenha rápida apuração no âmbito judicial. Temer garante que não negociou propina, nem deu aval ao dono da JBS para comprar o silêncio do Eduardo Cunha. Será bom mesmo que o conteúdo da gravação venha a público para mostrar quem está falando a verdade. Mas que é um tremendo risco para Temer, isso é. Afinal, o ministro Edson Fachin, do STF, não autorizaria a investigação do presidente da República, como fez, se não tivesse em mãos fortíssimos indícios de crime.
Dois pesos, duas medidas
O que não dá para entender, nem aceitar, é a condição nababesca de vida dos donos da JBS no exterior, enquanto implodem a República com delações premiadas. Nem prisão, nem tornozeleiras eletrônicas, nem apreensão dos passaportes... Nada. Fizeram a delação premiada e se mandaram para o desfrute num apartamento na 5ª Avenida, em Nova York. Como assim? A lei não é para todos? Vale destacar que os irmãos Batista eram pequenos açougueiros em Goiás e criaram um verdadeiro império, impulsionado por financiamentos milionários do BNDES nos governos Lula e Dilma e por aquisições internacionais que lhes valeram a pecha de predadores do mercado. Joesley e Wesley Batista chegaram a ocupar a 9ª posição entre as famílias mais ricas do país, num curtíssimo espaço de tempo. Mas estão enrolados até o pescoço nesse lamaçal de caixa dois nas campanhas eleitorais, denúncias de sonegação fiscal, corrupção, etc.
Lado B - Na esteira do crescimento da JBS, Joesley Batista passou a ter seu nome envolvido em episódios rumorosos. O Ministério Público Federal de Goiás denunciou o empresário por crime de sonegação de impostos e crime contra a ordem tributária. A acusação apresentava uma cifra notável: cerca de R$10 milhões.
Jeitinho - Não é só: o Conselho Administrativo de Defesa (Cade) anunciou a abertura de um processo para investigar a meteórica expansão da JBS. A superintendência geral do Cade identificou mais de 70 aquisições e arrendamentos de frigoríficos no país que não teriam sido formalmente notificados pela empresa. Mas Joesley conseguiu dar um “jeitinho” de engavetar o caso...
Só indiretas
A menos que o Congresso aprove a toque de caixa a PEC do deputado Miro Teixeira que pretende instituir eleição direta para presidente da República em mandato tampão, eventual substituto de Temer será escolhido pelos 513 deputados federais e 81 senadores. Eleição indireta. Pelo menos é o que diz a Constituição Federal hoje.
Maus lençóis
A Procuradoria Geral da República pediu a prisão de Aécio Neves, mas o ministro Edson Fachin autorizou apenas o afastamento dele do Senado. Por incrível que pareça, Aécio perdeu as funções, mas manterá os salários. Segundo o advogado Jacob Estevam, para o político perder o cargo será necessária a abertura de processo no Conselho de Ética do Senado, com desfecho pela cassação do mandato. É o mesmo caso do ex-senador Delcídio do Amaral.
Punição
A irmã do senador afastado Aécio Neves, Andrea, e o primo dele, Frederico, já estão presos preventivamente. A PF também prendeu o procurador da República Ângelo Goulart Vilela, do TSE. Ele é suspeito de favorecer uma empresa do grupo J&F, dono da JBS.
Trancos e barrancos
Bolsa com forte queda, dólar fechando o dia em alta, perplexidade, apreensão popular e péssima repercussão da hecatombe política brasileira no exterior. O aguardado corte das taxas de juros pelo Banco Central foi pro brejo. Perda de apoio político do governo no Congresso. Partidos políticos abandonando a base do governo. Esse foi o saldo da turbulenta quinta-feira.
Será o caos?
Em compensação, aliados do presidente Temer andaram disseminando a ideia de que “ruim com Temer, pior sem ele”. O raciocínio é o seguinte: se o presidente não renunciar, qualquer outra alternativa para substituí-lo será demorada, com consequente impacto negativo para a economia. Ainda que o presidente seja investigado, sua equipe econômica é respeitável e precisa ser preservada para evitar o caos no país. Esse é o discurso dos que defendem a permanência de Temer no poder.