CAMINHOS DA MENTE

Você já refletiu sobre o papel da família no desenvolvimento humano e na sociedade?

Sérgio Marçal
Sérgio Marçal
Publicado em 11/12/2024 às 07:40
Compartilhar

Retomando nossa conversa
Em nossa última coluna, tratamos sobre o tema Saúde do Trabalhador, que ganha especial atenção nesta época do ano, dada a sobrecarga acumulada no decorrer do mesmo. Nossa pauta dialogou com a coluna anterior, que tratava da Dezembrite, discutindo a sobrecarga de demandas e papéis sociais, os principais quadros de adoecimento no trabalho a exemplo da Síndrome de Burnout, ansiedade e depressão, e como sempre, tratamos da importância do cuidado e ressignificação do posicionamento individual na própria vida.

Caminhos da Mente de hoje
Em Caminhos da Mente de hoje, nos propomos a tratar sobre o real papel da Família no desenvolvimento infantil e na sociedade de modo amplo, relembrando conceitos e fatos que por vezes podem ser distorcidos e mesmo esquecidos no movimento muitas vezes frenético da vida. Sempre dissemos que é a família quem educa, traz valores para a vida, e a escola oferta o ensino formal. Em uma sociedade que tem a correria como marca, na qual a maioria tem mais de um vínculo de trabalho para suprir demandas sociais, as crianças merecem atenção quanto ao real sentido e papel da família. Não podemos esquecer de que é a família é o primeiro meio social ao qual a criança é inserida, sendo assim, é nesse ambiente primário que o mundo será apresentado, gerando as primeiras contribuições àquilo que denominamos de currículo oculto, ou seja, os valores que posicionarão o sujeito na sociedade e determinarão seu funcionamento.

Apresentação do mundo
A maioria do que conhecemos se inicia ainda na primeira infância e se estende ao longo do desenvolvimento. Desde a nominação inicial de objetos e pessoas, que derrete os adultos em palavrinhas ditas erradas, passando pelo primeiro não e limite, com as prováveis e típicas birras e choros decorrentes, às regras, normas e valores sociais, tudo se inicia na família. Essa constatação nos faz pensar o exercício do papel familiar e a apresentação de mundo essenciais à formação de uma pessoa consistente. Isso mesmo, consistente, nem dura, defendida, difícil, nem passiva, submissa e sem autoestima.

Produzindo pessoas
Há mães que dizem que filho sai da barriga, entra na cabeça e não sai nunca dela. Isso porque as necessidades de uma criança, da concepção, passando pelo parto, primeira infância, até a adolescência e idade adulta, são atendidas ou não, em grande parte pela família que esse indivíduo tem. Nesse sentido, precisamos refletir que tipo de pessoa estamos produzindo para a vida e o mundo. Se ele ou ela não for uma pessoa equilibrada, boa, resiliente, do bem, pode ser o contrário disso tudo, inclusive para nós mesmos em nossas velhices. Já pensamos nisso?

Entregando ao mundo
Lembra-se quando você deixou sua casa e foi para a escola pela primeira vez? O que sentiu? O que nós, que temos filhos sentimos quando vemos um pequeno ou pequena que mal carrega a mochila sozinho entrar em uma escola pela primeira vez? Coração apertado, angústia, incerteza, medo? Certamente e mais um turbilhão. Por isso, a parceria família e escola precisa ser sólida, pois quando o amor da nossa vida sai de casa pela primeira vez ele é entregue a alguém em quem precisamos confiar e de quem precisamos estar perto para construir essa relação de confiança e favorecer o desenvolvimento dos nossos pequenos e pequenas.

Escola: o primeiro espaço da criança após o lar
O professor e a equipe escolar passam a conhecer outros funcionamentos que não acompanhamos na rotina escolar, no dia a dia da escola por não estarmos nesse ambiente, e que são dados de realidade para trabalharmos o desenvolvimento de nossas crianças. Juntos, somamos educação do lar e da família e escolarização para construir o alicerce dessa edificação que desejamos todos que seja robusta, e habitada de amor e valores positivos. Por isso, estar perto e juntos, é fundamental! Essa obra se torna mais integrada e íntegra se tem os elementos trabalhados juntos.

Comunicação e afeto
Ensinar a criança a comunicar sentimentos é essencial. Dar nome a estes, obedecer a regras, saber dizer seu não a comportamentos indesejados de coleguinhas para não os repetir desde a infância é essencial. Fornecer segurança emocional mostrando á criança amor incondicional e limites cria continência, ou seja, contornos emocionais que encorajam para vencer a si mesma e ao mundo. Ensinar que o contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença é fundamental, afinal de contas, o ódio ainda assim é um sentimento, já a indiferença, é nada, significa que não me importo e que o outro não existe afetivamente pra mim. O afeto acolhe, dá limites, acalenta, fortalece. Por mais que se exploda com a criança, é sempre importante mostrar que, é porque eu te amo que me importo.

Educar: construção de patrimônio material e imaterial
Educar será sempre, construir um patrimônio, em escala evolutiva natural, que não dá saltos, o que consiste em desafio em uma sociedade imediatista como a nossa, que não suporta sequer a fila do drive da lanchonete e do posto de combustíveis, não é verdade? Por isso, ao educar, muitas vezes nos educamos também, pela força do exemplo, construindo uma tarefa de transformação recíproca. Nesse sentido, podemos dizer que maternidade e paternidade bem exercidos são exercício de transformação também dos adultos. Criar, prover é obrigação formal. Amar vai bem mais além, é faculdade, escolha, e transforma ambas as partes envolvidas. Isso retira a maternidade e paternidade do lugar de sina, de apenas trabalho, e a traz para seu lugar real, de produção, multiplicação e divisão de afeto, amor, potência e vida, que tem poder transformador sobre todos os envolvidos.

Super papais e super mamães podem e devem ser para a vida
Você já notou que crianças que tem pais minimamente saudáveis emocionalmente as enxergam como seres extraordinários quando bem pequeninas, ainda na primeira infância? Toda criança que tem seus genitores assim, ao desenha-los e descreve-los sempre dirá que são bonitos, que cuidam, consertam, fazem comida gostosa, são fortes, que são demais. Por que, como, onde, perdemos esse encantamento em alguns casos? Talvez seria necessário conhecer cada caso para responder, mas eu poderia te dizer que uma das formas dessa magia não se perder, está na expressão do amor na rotina.

Amor apesar da pressa e dos aborrecimentos
Haverá dias em que estaremos naturalmente cansados e ou esgotados, irritados, sonolentos, famintos, querendo desligar, e está tudo bem. Todavia, entre uma respirada profunda e outra, precisamos lembrar, em momentos mais amenos, de expressar amor em nossas relações, de mostrar que nos lembramos do outro com sua comida preferida, dizendo da saudade que sentimos, falando que amamos, ou simplesmente que é bom estar de volta em casa depois de um dia inteiro e estar juntos. A linguagem do amor é certamente, a vitamina mais poderosa da qual todos podemos desfrutar, e ela origina todas as boas coisas desse universo. A falta do amor, pelo contrário, produz uma anemia da alma, vazios incuráveis, angústias que não passam.

Pessoas difíceis: as mais feridas
As pessoas mais difíceis, são certamente as mais machucadas, e que não conseguem pedir ajuda, gritar socorro, pois forma silenciadas ou desistiram de pedi-la diante das impotências e falta de atenção da vida. Endurecem como defesa, pois por óbvio, ninguém projeta uma vida de solidão, falta de amor, recepção de olhares atravessados, angústia, cara amarrada. Indiferença, gera indiferença, abandono pode gerar abandono. Se pelo contrário demonstrarmos em pequenos gestos que estamos disponíveis, pode ser que a casca amoleça, e ao menos um sorriso brote da expressão sisuda e franzida.

Finalizando
Em síntese: não existe educar para a vida sem amor, pois não existe amor sem ação. Amor apenas nos lábios, apenas falado pode não ser amor de fato, pois amar pressupõe agir em favor de, cuidar de, interagir para crescimento das duas partes. Assim, educar é estar em ação, junto, par e passo o tempo todo. Falar de amor, e construí-lo pode ser visto pelos mais pessimistas como poesia, mas quem ama, com certeza não sucumbe às idiossincrasias da vida, e constrói e multiplica ilhas de paz em meio ao caos, oásis em desertos. Não há vida sem amor, tampouco, educação e evolução.

“Em última análise, precisamos amar para não adoecer”.

Freud

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Logotipo JM OnlineLogotipo JM Online

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

Logotipo JM Magazine
Logotipo JM Online
Logotipo JM Online
Logotipo JM Rádio
Logotipo Editoria & Gráfica Vitória
JM Online© Copyright 2025Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por

Utilizamos cookies e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e, ao continuar navegando, você concorda com essas condições.