Fé sob ataque
Ganhou repercussão nacional o vídeo em que uma idosa destrói uma estátua de Padre Cícero no Ceará, reabrindo o debate sobre intolerância contra cristãos. O caso ocorre num ambiente em que o cristianismo mantém proteção legal e presença majoritária, mas episódios de hostilidade simbólica deixaram de ser residuais. Em setembro de 2025, em Uberaba, a Comunidade Nossa Senhora da Imaculada Conceição foi alvo de vandalismo, com violação do sacrário e profanação da Eucaristia. A leitura entre lideranças é de escalada difusa. O tema volta ao centro do debate público.

(Foto/Reprodução)
Violência contra a cultura e a fé popular
A prisão em flagrante da turista argentina por vandalizar a imagem de Padre Cícero, no Crato, recoloca o tema na agenda política. Natural de Córdoba, ela fazia turismo religioso no Cariri e foi detida antes de embarcar. Houve fiança e liberação, com inquérito em curso. A tendência jurídica é tratar o caso como dano ao patrimônio público. Pesa o fato de o sacerdote ainda não ser canonizado, embora tenha processo aberto no Vaticano e título de Servo de Deus.
Da punição ao reconhecimento
A trajetória de Padre Cícero combina devoção popular e conflito institucional. Suspenso pela Santa Sé no fim do século XIX, após controvérsias sobre supostos milagres, o religioso tornou-se eixo de peregrinação no Cariri. Décadas depois, foi reabilitado pela Igreja, reabrindo espaço para uma revisão histórica. A abertura da causa de beatificação em 2022 demonstra que o reconhecimento oficial pode estar perto.
Devoção que trouxe prosperidade
A ascensão de Juazeiro do Norte acompanha a projeção de Padre Cícero como um santo das massas. A devoção consolidou fluxo contínuo de romeiros e contribuiu para estruturar uma forte economia religiosa na região. Hoje, o processo em fase romana mobiliza milhares de páginas e articula teólogos e cardeais no Vaticano. Nos bastidores, a leitura é de reconhecimento da santidade de uma liderança que nunca perdeu capilaridade social vai potencializar ainda mais seu peso simbólico no Nordeste.
Símbolo e base
Padre Cícero opera como ativo de alto peso religioso, político e cultural. O ataque da turista argentina destruindo um símbolo da fé nordestina ocorreu em plena Quaresma, período central do calendário católico, o que aumenta a gravidade do ato criminoso. A repercussão ultrapassou o campo religioso e alcançou bancadas de base confessional. Nos bastidores, cresce a pressão por respostas rápidas para evitar leitura de omissão. O caso deve ser incorporado a narrativas de proteção à fé, elevando o custo político de episódios semelhantes.
Fé em movimento
A abertura da Quaresma mobilizou as paróquias de Uberaba, com adesão relevante já nas primeiras horas do dia, o que reafirmou a dimensão pública do rito religioso. Na São Benedito, a missa de Cinzas nas primeiras horas do dia funcionou como gesto coletivo de identidade e pertencimento. Em meio a um ambiente social fragmentado, o símbolo ganha centralidade. Para a Igreja, a liturgia opera como linguagem visível de coesão. O efeito social visível é a valorização da fé como um marcador cultural ativo no espaço urbano.
Jejum contemporâneo
Na homilia, o padre Marcelo Lázaro atualizou o discurso quaresmal ao propor “jejum” de redes sociais como resposta ao excesso de tela e ao ruído do mundo contemporâneo. A estratégia mira dialogar com fiéis e conscientizar a sociedade para a necessidade de dar mais atenção à família e aos valores essenciais. Ao deslocar a penitência para hábitos cotidianos, o sacerdote demonstrou a importância da centralidade espiritual e afetiva na vida das pessoas. Uma iniciativa que estimula o reposicionar da prática religiosa no debate sobre comportamento e consumo.
Rito e presença
O início da Quaresma na Catedral de Uberaba reafirmou o peso público da liturgia como linguagem de presença. O toque do sino e a adesão noturna funcionaram como marcador simbólico em meio à rotina urbana. Sob condução do Monsenhor Célio Pereira Lima, a celebração reforçou oração, jejum e caridade como eixo de reorganização individual e coletiva. A Igreja aposta na força da conversão para sustentar um necessário processo de transformação social guiado pela fé.
Cinzas e memória
O rito das cinzas, com a fórmula tradicional sobre a finitude, operou como síntese do tempo litúrgico e gesto de alto valor simbólico. Ao remeter à fragilidade humana, a celebração desloca o fiel para uma lógica de conversão e pertencimento. Em ambiente de hiperexposição e imediatismo, o símbolo atua como contraponto. Na linha do que sustentou o Papa Leão XIV, em sua mensagem para o início do período quaresmal, a lembrança do “pó” não encerra, mas reposiciona: é ponto de partida para a reconciliação e a retomada de sentido.

(Foto/Pascom/Catedral Metropolitana)
Fé e agenda social
O lançamento da Campanha da Fraternidade 2026 integrou a abertura da Quaresma em Uberaba e levou para o centro do rito a pauta da moradia. Com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós”, a CNBB enquadra habitação como condição de dignidade. A estratégia conecta espiritualidade a um problema concreto na realidade político-social do Brasil e amplia o alcance da mensagem e reforça a capacidade da Igreja de pautar debates e mobilizar a sociedade.
Cruz nas ruas
Na madrugada de sexta-feira (20/2), a Via Sacra no bairro Cartafina levou a Quaresma para além dos templos e ocupou o espaço urbano em Uberaba. Organizada pela Paróquia Sagrada Família, a caminhada às 5h30 reuniu fiéis em torno de um rito tradicional. Em meio à dispersão social, o percurso coletivo opera como afirmação pública de fé. A Igreja reforça presença por meio de práticas visíveis. O efeito é consolidar identidade religiosa no cotidiano da cidade.
Pedagogia da fé
A Via Sacra, tradição difundida desde a Idade Média, foi mobilizada como instrumento de formação espiritual no tempo quaresmal. Ao refazer o caminho do Calvário, a prática desloca a fé do discurso para a experiência concreta. O pároco José Edilson conduziu o rito como preparação para a Páscoa. Os fiéis que participaram do ato de fé da Paróquia Sagrada Família puderam percorrer espiritualmente a Via Dolorosa e refletir sobre os passos de Cristo desde a condenação até o sepultamento.

(Foto/Pascom/Paróquia Sagrada Família)
A centralidade de Deus
Ao ecoar a orientação de Leão XIV — recolocar Deus no centro —, a condução pastoral do padre José Edilson alinhou a prática local a uma diretriz mais ampla da Igreja. A mensagem busca reposicionar o fiel católico em meio à dispersão contemporânea e reafirmar a centralidade de Cristo na vida cotidiana, apresentando a fé como um eixo organizador de sentido imprescindível para o ambiente de múltiplas influências ora experimentado pela humanidade.
Calendários em sincronia
O início simultâneo da Quaresma e do Ramadã, coincidiu em 2026 com o calendário do Ano Novo Chinês, algo que não ocorria desde o século XIX. A sobreposição de datas reúne tradições distintas em torno de práticas semelhantes, como jejum, reflexão e caridade. O Ramadã marca a revelação do Alcorão a Maomé e também mobiliza milhões de fiéis no mundo. A coincidência amplia a visibilidade global dos ritos e contribui para evidenciar a centralidade da religião em diferentes culturas.
Frase
"É preciso se aproximar para reconhecer o Cristo presente nas periferias e entre os empobrecidos. Deus habita nossas cidades, mas muitas vezes está escondido nos que mais sofrem. " — (Rede Jesuíta de Educação Básica)