Acabou a eleição. Ou melhor: acabaram as carreatas, os santinhos no para-brisa, os vídeos com música emocionante e aquele candidato que apareceu tanto no seu Instagram que, por alguns dias, parecia até amigo íntimo.. Enfim. Respiramos.
Agora chegou a parte que eu mais gosto: olhar para os números e tentar entender o que eles estão contando. E, em Uberaba, eles têm bastante coisa para contar.
Dos 20 candidatos ligados politicamente à cidade que disputaram vagas de deputado estadual e federal, apenas um foi eleito: Tony Carlos, para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais. E antes que alguém pense que estou falando de uma eleição municipal: não. Estamos falando de candidatos que disputaram cadeiras que representam Minas Gerais em Belo Horizonte ou em Brasília.
Tony Carlos foi eleito deputado estadual, e recebeu 56.546 votos em Minas Gerais. Desses, 53.366 vieram de Uberaba.
Deixa eu traduzir: praticamente 94% dos votos que elegeram ele saíram da mesma cidade.
Isso é importante porque mostra uma coisa que a gente esquece de perceber: quando a gente concentra voto, quando a gente realmente escolhe alguém daqui e vota em peso, a cidade consegue fazer diferença em nível estadual.
E aqui aparece uma daquelas situações que fazem a gente olhar para a tela e falar: “Peraí… como assim?”
Cabo Diego terminou a eleição com 40.786 votos em Minas Gerais e ficou a apenas 90 votos de Pedro Luiz, o último candidato do PL entre os eleitos para a Assembleia.
Noventa. É menos gente do que cabe em uma sala de aula cheia.
Claro que não é tão simples quanto parece. Deputado estadual não vira deputado simplesmente porque teve mais votos. Entra na conta o sistema proporcional, o desempenho dos partidos, as federações, tudo isso junto. É matemática política mesmo.
Mas você já parou para pensar como é estranho conhecer todos esses nomes de candidatos locais, saber que eles tiveram uma votação expressiva, e nenhum deles chegar lá?
Porque é aqui que está o plot twist dessa história.
Pois é. Para deputado federal, nenhum candidato de base local conseguiu passar.
Mariscal foi o mais votado daqui: 40.972 votos em Uberaba. Franco Cartafina, 26.749. Anderson Adauto, 16.511. Mauricinho de Sá, 11.594.
É muita gente né? Pensa só, quantas pessoas envolvidas nesse montante, votando em candidatos que conhecem, que acreditam, que torceram pra ganharem.
E mesmo assim nenhum deles foi.
Enquanto isso, Nikolas Ferreira — que não tem base política aqui em Uberaba — recebeu 34.275 votos na cidade.
E aqui é onde muita gente vai querer falar "ah, Uberaba não vota em Uberaba, somos um bando de desunidos" ou algo do tipo.
Eu já acho que é mais complicado que isso.
Porque voto não é propriedade da cidade, cada pessoa vota em quem acredita, em quem conhece, em quem representa o que ela pensa. Isso é democracia, não é traição.
Mas o que esse resultado mostra é que você não precisa ser daqui pra ter força eleitoral aqui.
Um nome pode vencer em Uberaba por ideologia, por ter visibilidade, por estar na internet o tempo todo, por ter lideranças locais trabalhando pra ele.
Isso é a realidade da política agora. E talvez essa seja a lição mais incômoda dessa eleição.
Mas existe uma pergunta que eu acho bem importante: Por que um candidato de Uberaba não consegue convencer o eleitor de Uberaba de que vale a pena votar nele?
Essa pergunta não é só para o eleitor reclamar, é para o candidato também.
Porque é fácil dizer "ah, Uberaba não se une", mas é mais difícil assumir que talvez você não tenha explicado bem por que a gente deveria confiar em você.
Por que você se diferencia de quem já está em Brasília e está fazendo um trabalho interessante lá.
Representação não se constrói uma vez a cada quatro anos no voto, mas sim na confiança que você consegue construir entre as coisas.
Não acho que seja a pergunta certa.
Acho que Uberaba recebeu um retrato do seu potencial político e postura do eleitorado local.
Um deputado estadual que conseguimos eleger porque votamos juntos.
Um deputado federal que continua faltando.
Um candidato que ficou a poucos votos de chegar.
Milhares de pessoas espalhando voto em diferentes nomes e diferentes cidades.
A eleição não termina quando sai o resultado, ela termina quando você senta e pensa no que aquele resultado significa.
Porque as urnas contam histórias e a gente é que precisa aprender a ler.
E talvez essa seja a conversa que Uberaba precisa ter agora.