JOVEM POLITICANDO

Você não quer ouvir minha opinião. Quer descobrir de que lado eu estou.

Lyandra Cibelle
Lyandra Cibelle
Publicado em 19/10/2026 às 13:49
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Experimente falar de política numa roda de amigos, numa reunião de família ou até nos comentários de uma publicação. Às vezes, antes mesmo de você terminar a primeira frase, alguém já está tentando descobrir em quem você vota.

Você pode estar falando sobre educação, segurança pública, economia ou até sobre uma decisão específica do governo. Mas, de repente, a conversa deixa de ser sobre o assunto e passa a ser sobre você.

“Ah, mas você é de esquerda ou de direita?”

E pronto. Parece que, depois dessa resposta, a pessoa já sabe o que fazer com tudo o que você disser dali em diante.

Se você for do grupo dela, existe uma chance de concordar antes mesmo de entender o argumento. Se for do grupo oposto, talvez nem valha a pena escutar.

É como se a gente tivesse parado de ouvir para começar a classificar.

A política virou uma espécie de teste de identidade. Antes de discutir uma proposta, você precisa provar que é leal ao seu lado. A opinião chega com uma etiqueta colada na testa de quem fala, e quem decide se a pessoa merece ser ouvida é a etiqueta, não o argumento.

Só que tem uma contradição nisso tudo. Se eu só escuto quem já pensa como eu, como vou perceber que posso estar errada? Como vou conhecer um argumento que nunca considerei? Como vou formar uma opinião própria se só aceito o que confirma aquilo em que já acredito?

Pensar por conta própria também exige disposição para encontrar ideias que nos incomodam.

Claro que nem tudo merece o mesmo peso. Fato é fato, mentira é mentira, e tem coisa que não dá para tratar como simples divergência política. Mas a gente só descobre em qual dessas caixas uma ideia cabe depois de ouvi-la. Concordar pode vir depois, ou nunca.

Falta menos de uma semana para o segundo turno. No domingo, a gente vai às urnas escolher o próximo presidente. Na segunda-feira, vai continuar dividindo a mesma cidade, a mesma fila do mercado, a mesma sala de aula e o mesmo grupo da família com quem votou diferente.

A eleição termina. A convivência, não.

Por isso, fica uma pergunta: quando alguém começa a falar de política perto de você, sua primeira reação é tentar entender o que essa pessoa está dizendo ou descobrir de que lado ela está?

Porque, se a resposta vier antes da escuta, talvez a gente não esteja discutindo política de verdade. Talvez esteja apenas procurando mais uma razão para continuar do lado em que já estava.

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