RAELSON BATISTA

A inteligência artificial prometeu mais tempo para o paciente. Está cumprindo?

Raelson Batista
Raelson Batista
@raelsonraelson.trata@gmail.com
Publicado em 10/09/2026 às 18:15Atualizado em 10/09/2026 às 18:16
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O maior foco da assistência na saúde, seja na medicina, na enfermagem ou em qualquer outra profissão sempre foi amenizar dores e dramas, auxiliar as dúvidas e buscar curas quando e sempre que possível. A chegada da Inteligência Artificial (IA) é um recurso promissor para acelerar esse processo todo, diminuindo ou eliminando erros, maximizando o tempo dedicado para ações mais objetivas e mais importantes: profissionais liberados em seu tempo para ouvir mais, para olhar e perceber com mais detalhes e, com isso, trazerem mais acolhimento humano para uma relação que não pode ser fria e distante no dia a dia. Mas, será que, com as muitas experiências já existentes tem sido esse mesmo o resultado percebido?

A IA já está presente em equipamentos que promovem triagem de pacientes de forma mais precisa e ágil, bastando terem os dados clínicos e algumas aferições. O objetivo tem sido ampliar a assertividade de classificação, mais acertos no direcionamento do cliente e, de imediato até a sugestão de exames e cuidados que devem ser adotados rapidamente. Em outro ponto, é possível gravar toda a consulta, transcrevê-la para o prontuário somente com os trechos considerados pela IA como sendo importantes e relevantes para o contexto da consulta em si. Existem outros dispositivos que analisam as imagens de um exame de radiografia, por exemplo, e indicam que não há anormalidades, reduzindo assim tempo de espera por uma eventual avaliação de um radiologista. Enfim, diversas aplicações já existem para diminuir o tempo e aumentar a precisão das ações em favor dos pacientes.

Tudo isso só pode fazer sentido se as pessoas que atendem esses pacientes: médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e outros, passarem a utilizar essa otimização do tempo para que se dediquem mais a escutar, observar e de fato auxiliarem os que nos procuram em momentos delicados. Pesquisas e estudos, tanto no Brasil quanto em outros países, têm mostrado o contrário. Um estudo com 319 médicos de hospitais de Boston, nos Estados Unidos (Frontiers in Psychology, 2025) demonstrou que metade deles concorda que a interação com IA pode aumentar a ansiedade do paciente. No mesmo sentido, revisões recentes (Healthcare, 2026) apontam erosão da autoridade do médico e risco de interação humana diminuída como efeitos indesejados. A consequência tem sido: a perda da empatia, o afastamento entre consultando e consultado, decisões que são praticamente sentenças – tirando o poder de compartilhamento e definição por parte do paciente – que, por incrível que possa parecer, tem se tornado um elemento secundário, quando deveria ser o contrário.

É preciso saber aplicar, revisar e transmitir ao paciente a resposta da IA como subsídio à decisão — nunca como substituto dela – eis a missão. Há, portanto, um caminho enorme para ser seguido e traçado com a incorporação da inteligência artificial no dia a dia dos atendimentos da saúde. O profissional tem que ser preparado tecnicamente para saber usar a IA. O Conselho Federal de Medicina recentemente (Resolução 2.454/2026) delineou a IA como auxiliar e nunca como soberana, a necessidade de supervisão humana obrigatória, proibição de delegar à IA a comunicação de diagnóstico/prognóstico, e menção explícita a preservar "escuta qualificada, empatia, sigilo e respeito à dignidade humana". A tarefa não é fácil, mas precisa ser praticada desde já no campo das universidades (quiçá das escolas desde o ensino médio), na formação dos profissionais que já sairão com o instrumento de atuação desenhado para a tecnologia da informação que processa milhares de dados em segundos. E mais ainda: olhar atento para aqueles que já estão no mercado de trabalho, atropelados pela inovação tecnológica e pela regulamentação, e muitas vezes sem o apoio certo e bem direcionado para o uso apropriado dos novos recursos.

A interação entre humanos deve ser intermediada e facilitada, de alguma maneira, por algoritmos, máquinas, dispositivos com inteligência artificial – este é um caminho inevitável. Mas, nenhum propósito pode superar a dinâmica do contato, da percepção da mente humana diante da expressão de dor, do desabafo angustiante sobre qualquer temor. É a complexidade do ser humano que exige outro ser igualmente complexo. Não existe mais espaço para a ausência da empatia, produzindo interação verdadeira que permita: perceber no outro a existência de nós mesmos e, assim, sermos seres que se ajudam mutuamente. Esse é o propósito ancestral que não pode ser substituído pelo moderno. Jamais.

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