Domingo de manhã, corrida de rua, último quilômetro. Um homem de 48 anos cai a poucos metros da linha de chegada. Ninguém esperava. O que acontece nos próximos minutos vai decidir se ele volta para casa.
Cenas como essa ganham as redes e as manchetes, e assustam. Assustam muito. Mas é bom deixar claro desde já: esporte faz muito bem. A ciência já comprovou os benefícios da atividade física para o corpo e para a mente. A corrida de rua caiu no gosto do brasileiro, e o futebol de fim de semana, o tênis, o beach tennis e tantas outras modalidades enchem quadras e parques todos os dias. O sentido não é parar de praticar atividades físicas ou mesmo não fazer nenhuma, mas é sim fazer isso de forma segura.
Arritmias, infarto e morte súbita durante o esporte são raros quando se olha o enorme número de praticantes. Nas maratonas e meias maratonas dos Estados Unidos, por exemplo, acontece cerca de uma parada cardíaca para cada 200 mil corredores. Quando os casos aparecem, atingem muito mais homens do que mulheres.
A maioria acontece em quem já passou dos 35 anos, e aí o vilão quase sempre é o mesmo: a artéria do coração entupida, que provoca infarto e arritmias graves. São justamente os casos em jovens que mais chocam, justamente porque atingem gente que parecia saudável. Antes dos 30, a causa costuma ser outra: um problema no coração que a pessoa tem desde que nasceu e que nunca deu sinal e, por isso, não sabia que tinha.
Os casos aparecem mais no futebol, nas corridas e no basquete. Em parte, porque são esportes que muita gente pratica; em parte, porque exigem arrancadas, freadas e esforço no limite.
Por isso, antes de começar qualquer atividade, ou de aumentar o ritmo, vale passar pelo médico e fazer os exames indicados. Essa é a parte que cabe a cada praticante. Exame em dia traz segurança e diminui bastante o risco, mas não zera: ninguém tem garantia total de que nada vai acontecer no dia do treino ou da prova.
E o corpo costuma dar avisos. Dor ou aperto no peito, falta de ar fora do normal, coração disparado, tontura ou desmaio durante o exercício não são “falta de preparo”. São motivo para parar e procurar uma avaliação adequada. O mesmo cuidado vale para quem tem, na família, casos de morte súbita ou de doença do coração antes dos 50 anos.
Como o risco nunca é zero, a outra metade da prevenção é estar preparado para agir. E isso não depende só de cada um: é tarefa do poder público, dos organizadores de eventos e de quem administra os espaços esportivos. Academias, corridas de rua, campeonatos de futebol e de basquete precisam de bom planejamento, com equipes de saúde, médicos e enfermeiros, capazes de atender emergências.
Esse planejamento começa por entender onde e quando o risco aparece. Na corrida de rua, a maior parte das paradas cardíacas acontece no trecho final da prova, quando o cansaço é maior. Por isso a equipe precisa estar na reta de chegada, e não só na largada. No futebol e no basquete, a atenção deve ser redobrada nos momentos de maior intensidade e à medida que o cansaço se acumula. É esse conhecimento que diz onde posicionar o socorro.
Nas academias, nos campos, nos clubes e em qualquer lugar com muita gente, mesmo que ninguém esteja praticando esporte, ter um DEA (Desfibrilador Externo Automático) por perto pode ser a diferença entre a vida e a morte.
Comprar o desfibrilador, sozinho, não resolve. As pessoas precisam de um treinamento mínimo para usar o aparelho e para fazer a massagem cardíaca, as compressões no peito. Cabe ao poder público criar leis que exijam os equipamentos e a capacitação do maior número possível de pessoas, principalmente de quem trabalha em ambientes esportivos.
Nada disso é novidade, no Brasil ou no mundo. A Lei Lucas, por exemplo, já obriga as escolas brasileiras a treinar professores e funcionários em primeiros socorros. São medidas possíveis, e cada vida salva num desses momentos dramáticos justifica o esforço.
E não é só no esporte. O infarto e a morte súbita também acontecem dentro de casa e no trabalho. Nesses lugares, enquanto a ambulância não chega, o primeiro socorro vai ser dado por quem estiver mais perto: um colega, um vizinho, até uma criança, se tiverem recebido o treinamento básico. Por isso, toda oportunidade de aprender deve ser aproveitada.
Vários estudos mostram que desfibrilador por perto e massagem cardíaca bem feitos, começados nos primeiros minutos, aumentam muito a chance de sobreviver a uma parada cardíaca fora do hospital, justamente onde mais precisamos de gente capaz de ajudar. Duas mãos juntas, apertando o peito no ritmo certo, podem significar a continuidade de uma vida. Cada um pode, se quiser, fazer a diferença.