RAELSON BATISTA

As eleições podem ser um perigo para o coração

Raelson Batista
Raelson Batista
Publicado em 07/10/2026 às 18:26
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Nos cinco dias que se seguiram à eleição presidencial americana de 2020, as internações por infarto agudo do miocárdio subiram 42%. O dado é de uma pesquisa publicada dois anos depois (Mefford et al., JAMA Netw Open, 2022), que avaliou uma população de mais de 6 milhões de pessoas, e serve de alerta também para nós. Passado o primeiro turno das eleições para presidente da república e governadores de estado, e com o segundo turno marcado para o dia 25 de outubro, ficam lições que precisam ser levadas a sério para o bem da saúde do coração de cada um de nós. O envolvimento frenético e passional com cada projeção das apurações e, mais ainda, com o resultado pode trazer prejuízos para a saúde cardíaca e, claro, também mental. Isso serve tanto para os eleitores quanto para os próprios candidatos.

Para os candidatos, sobretudo aqueles que se envolvem fortemente nas suas próprias campanhas, há um evidente esforço físico e mental que leva a um desgaste corporal imenso. São dias de estresse intenso com deslocamentos, discursos, alimentação irregular, sono perturbado etc. A cada eleição, a jornada de desgaste se repete, exigindo preparo para enfrentar a disputa de cada voto. Independentemente do nível de acirramento da batalha eleitoral, a dúvida da vitória, do sucesso possível ou da derrota iminente causa angústia e impacta na integridade mental. E o desgaste não termina com a vitória. Um estudo curioso, publicado no British Medical Journal em 2015, comparou chefes de governo eleitos em 17 países com os adversários que perderam a disputa: os eleitos viveram, em média, 2,7 anos a menos. Os autores não analisaram as causas das mortes, mas levantaram a hipótese de que o estresse de governar acelera o envelhecimento.

Mas o que acontece no organismo? Diante da tensão, o corpo reage como se estivesse frente a um perigo real. Há uma descarga de adrenalina e de cortisol, a frequência cardíaca acelera, a pressão arterial sobe e as artérias coronárias podem se contrair. Para quem já tem placas de gordura nessas artérias, muitas vezes sem saber, esse é um terreno fértil para que uma delas se rompa e provoque o infarto. Aumentam também as arritmias. Existe ainda uma condição menos conhecida do público, a síndrome de Takotsubo, chamada de síndrome do coração partido, em que uma emoção intensa enfraquece de forma súbita o músculo cardíaco e produz um quadro muito parecido com o do infarto, na maioria das vezes reversível. Não é só força de expressão, portanto, dizer que uma grande decepção pode partir um coração.

Se para os candidatos a tarefa é árdua, para os eleitores, sobretudo os mais fervorosos torcedores partidários, o preço também pode ser elevado. Arrisco dizer que, em muitos casos, até maior. Quem concorre a um cargo público, em teoria, está preparado para o desafio que se desenha. Deve saber e calcular o enfrentamento que tem que encarar em cada pleito. Mas, para o eleitor, a entrega desenfreada para defender posições, nem sempre claras e bem entendidas, pode gerar impacto sobre o estado de saúde com graves consequências.

E isso não é apenas impressão. Na mesma pesquisa americana citada no início, as internações por doença cardiovascular aguda como um todo subiram 17% nos cinco dias após a eleição, quando comparadas a cinco dias de duas semanas antes. O resultado se manteve mesmo excluindo os pacientes com COVID. Curiosamente, não houve diferença para AVC (Acidente Vascular Cerebral) nem para insuficiência cardíaca. Outro trabalho, feito durante a eleição americana de 2016 com pacientes portadores de marcapasso ou desfibrilador (Rosman et al., J Am Heart Assoc, 2021), registrou aumento de 77% nas arritmias no período eleitoral.

Portanto, desejar que um candidato, com a proposta ou a defesa ideológica mais próxima da sua, seja eleito deve ter um limite: o do autocontrole, que é também uma questão de sobrevivência. Não é saudável a defesa acalorada de posicionamentos, aquela que extrapola qualquer razoabilidade de convivência e leva a discussões infrutíferas baseadas na agressão verbal ou, pior ainda, física. Discussões assim elevam a frequência cardíaca, aumentam a pressão arterial e provocam mal-estar geral. A vida deve continuar mesmo quando se é derrotado, sendo candidato ou eleitor.

O belo exercício da resiliência é justamente o que deve motivar a continuidade: superar os percalços e aprender com o trajeto. Sim: alcançar o objetivo – torcer para que ele ocorra – é bom e sempre prazeroso. Mas, se não acontecer, aceitar o novo tempo, refletir e aprender com o caminho talvez seja ainda mais proveitoso e, certamente, mais saudável que viver no desânimo ou na revolta que a não conquista possa trazer. Entristecer-se com a vitória que não veio é de se esperar. Mas isso precisa ser momentâneo, e não um estado permanente que domine o dia a dia.

A recomendação, então, é ter cautela, sabedoria e discernimento. Cautela para não se entregar a situações de grandes emoções, sobretudo se você já sabe que tem problema no coração ou dificuldade para lidar com as fortes emoções que a campanha ou a apuração podem trazer. Sabedoria para tratar o período eleitoral como um tempo a mais na trajetória democrática da sociedade, e não como a última instância de uma vida. E discernimento para entender cada situação, respeitando o coletivo e permitindo uma convivência harmoniosa. Vale ainda um alerta para todos: dor ou aperto no peito, que pode irradiar para o braço ou para a mandíbula, acompanhada de suor frio ou falta de ar, exige atendimento imediato ou uma ligação para o SAMU, no 192. A apuração pode esperar, esses sintomas não.

Cuidar-se nesse período eleitoral não quer dizer deixar de ter participação ativa em atos políticos, de discutir ideias e de analisar propostas. Declarar-se solidário(a) e afeito(a) a qualquer que seja o candidato não é, por si só, algo que prejudique a saúde de ninguém. Desde que haja respeito aos próprios limites do corpo e, sobretudo, a certeza de que, do outro lado, existe um ser humano que merece igualmente ser tratado com dignidade, ainda que não mereça o seu voto.

Afinal, nenhum candidato, vencedor ou derrotado, vale um infarto.

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