RAELSON BATISTA

Bets: a aposta que pode custar muito mais que dinheiro

Raelson Batista
Raelson Batista
Publicado em 30/09/2026 às 17:10
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Em 25 de setembro, o Governo Federal publicou a Medida Provisória 1.394/2026, que proíbe as apostas on-line de quota fixa — as famosas bets — em todo o país. Proibir colocou novamente em evidência um problema que vai muito além das apostas: a dependência.

Os números assustam. Segundo o III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), da Unifesp, mais de 28 milhões de brasileiros apostaram nos últimos 12 meses. Cerca de 10,9 milhões já apresentam comportamento de risco ou problemático, e 1,4 milhão preenche critérios de transtorno do jogo — ou seja, de doença. E o peso cai mais sobre quem tem menos: entre os apostadores que ganham menos de um salário mínimo, mais da metade está em situação de risco; entre os que ganham acima de dois salários, é cerca de um em cada cinco.

O dinheiro envolvido ajuda a dimensionar o problema. Em 2024, o Banco Central estimou que entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões por mês saíam, via Pix, rumo às empresas de apostas. Do outro lado da balança, o Ministério da Saúde apresentou há poucos dias uma estimativa de custo social de R$ 38,8 bilhões por ano ligado ao jogo problemático — a maior parte na saúde: suicídios, depressão e tratamentos. Patrocínio a clube de futebol e arrecadação de impostos não pagam essa conta. O jogo já representa o 3º maior vício mais frequente no Brasil, perdendo para o álcool e as drogas ilícitas.

Por que as bets viciam tanto? Na época dos bingos, era preciso se arrumar, sair de casa, chegar ao local e ser visto. Hoje, a aposta está no bolso, disponível 24 horas, longe dos olhos de todos e muitas vezes escondida entre outras tarefas no celular. Soma-se a isso uma lógica simples e cruel: o jogo é desenhado para que a banca ganhe no longo prazo. Os pequenos ganhos pelo caminho são a isca que alimenta a ilusão de que a próxima aposta vai virar o jogo.

Como médico, faço questão de lembrar: dependência é doença crônica, como a hipertensão ou a asma. Tem recaída, exige tratamento contínuo e compromisso de longo prazo. E cobra também do corpo: insônia, dificuldade de concentração, ansiedade, irritabilidade, alterações do apetite, do humor e da libido, aumento da pressão arterial. É um desgaste diário que, sem cuidado, pode deixar marcas permanentes.

Proibir, portanto, é só o primeiro passo. Quem já está dependente não se cura porque o aplicativo saiu do ar — e o risco de migrar para sites ilegais, fora do alcance da lei, é real. O cuidado precisa vir em várias frentes ao mesmo tempo e ser mantido: acompanhamento psiquiátrico, psicoterapia individual, em grupo e familiar, medicamentos quando indicados e redes de apoio. Ação isolada vira modismo e passa.

Há quem argumente sobre os benefícios econômicos das bets: arrecadação de impostos, empregos, publicidade e patrocínios milionários, especialmente no futebol. É uma discussão legítima. Mas qualquer avaliação séria também precisa colocar do outro lado da balança o custo humano e social produzido pela dependência. Nessa mesma linha há os que defendem a liberalização de diversas drogas hoje ilícitas, poderiam gerar tributos e serem caminho para aplicação de outras frentes. Não estou convencido que se tenha preparo social para essa realidade no Brasil – ainda temos uma cultura frágil que serve de campo fértil às promessas fáceis que a indústria de dependência acaba propagando.

Quanto custa recuperar alguém que perdeu suas economias, acumulou dívidas, distanciou-se ainda mais das conturbadas relações interpessoais e comprometeu-se com um submundo que torna refém a mente e o corpo em razão do vício? A conta não fecha: são elevadíssimos os custos das internações, do uso de medicamentos e de terapias diversas. 

E o tratamento raramente depende de uma única medida. Pode envolver acompanhamento psicológico e psiquiátrico, suporte familiar, grupos de apoio e outras condições eventualmente associadas. Mais importante: afastar alguém do jogo ou dos outros elementos viciantes não significa necessariamente que o problema terminou. 

Por isso, talvez devêssemos falar não apenas sobre proibição, mas também sobre prevenção.

Há bons exemplos lá fora. A Islândia, que no fim dos anos 1990 tinha índices altos de consumo de álcool e cigarro entre adolescentes, apostou na prevenção: pesquisas anuais para mapear onde estava o risco, mais esporte, música e arte depois da aula, e os pais por perto. Entre 1998 e 2016, o percentual de jovens de 15 e 16 anos que haviam se embriagado no último mês caiu de 42% para 5%; o de fumantes diários, de 23% para 3%. Na Escócia, o preço mínimo por dose de álcool, adotado em 2018, reduziu em 13,4% as mortes diretamente causadas pela bebida, segundo a avaliação oficial. Nenhum dos modelos se copia de uma vez, mas os dois mostram que política pública bem-feita funciona.

No Brasil, dá para começar. Poderíamos, inclusive, discutir novas formas de aproximação entre comunidade, educação e saúde. Por que não pensar em uma figura semelhante ao agente comunitário de saúde, mas também voltada às questões sociais e educacionais? Alguém capaz de identificar vulnerabilidades e aproximar pessoas e famílias dos recursos de apoio disponíveis. Certamente não resolveria tudo. Nenhuma medida isolada resolverá.

A inércia não pode ser opção. Ver pessoas — muitas vezes jovens, muitas vezes pobres — reféns da promessa fugaz de dinheiro fácil deve nos incomodar. Manter o assunto vivo, cobrar e buscar saídas já é uma forma de enfrentamento. No fim das contas, é uma questão de dignidade, de compaixão e de cuidarmos uns dos outros.

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