Todo ano, entre outubro e novembro, duas histórias se repetem no consultório. Mudam os nomes e alguns detalhes, mas o enredo é quase sempre o mesmo.
Cláudia tem 42 anos, é professora e mãe de duas meninas. Procurou atendimento por causa de palpitações, coisa comum em quem dorme pouco e trabalha muito. Ao revisarmos a história familiar, contou, quase de passagem, que a mãe teve câncer de mama aos 46 anos e que uma tia morreu de câncer de ovário. Nunca tinha feito mamografia. "Achei que era coisa para depois dos 50, doutor." Fez os exames e encontramos uma lesão pequena, ainda restrita à mama. Tratou cedo, com uma cirurgia que preservou a mama, e hoje a preocupação dela é outra: as filhas.
Seu Antônio tem 63 anos e é produtor rural aqui da região. Veio porque a pressão "andava subindo". Nunca tinha feito exame de próstata e fez questão de dizer que não sentia nada. O pai morreu "de problema na próstata" e o irmão mais velho também nunca se examinou. O PSA veio alterado e a biópsia confirmou o tumor, ainda localizado e com chance real de cura. Saiu do consultório com a pressão controlada e com um tratamento que vinha adiando, sem saber, havia quinze anos.
Nenhum dos dois sentia nada, e é justamente por isso que outubro e novembro existem. Pela estimativa do Instituto Nacional de Câncer para o período de 2026 a 2028, o Brasil deve registrar a cada ano cerca de 78,6 mil novos casos de câncer de mama e 77,9 mil de câncer de próstata. Deixando de lado o câncer de pele não melanoma, cada um deles responde por aproximadamente 30% dos tumores no seu sexo. Em Minas Gerais, a previsão é de 10.290 casos de próstata e 8.430 de mama por ano. O “Outubro Rosa” e o “Novembro Azul” não curam ninguém, mas quebram o silêncio. Levam o assunto para a mesa do almoço, para o grupo da família e para a conversa no trabalho, ou pelo menos assim deveria ser: conversar sobre o assunto e provocar a atenção dos que ainda têm restrição. Muita gente só marca a consulta porque viu a cor estampada em algum lugar ou ouviu falar do tema no rádio, na Tv ou em outro meio.
Uberaba, aliás, tem um exemplo que já ultrapassou as divisas do Triângulo. O projeto À Flor da Pele nasceu no Hospital Hélio Angotti para realizar mutirões de reconstrução mamária em mulheres que perderam a mama para o câncer. Virou instituto, reúne cirurgiões, anestesistas e equipe de enfermagem e já levou seus mutirões a outros estados. A caminhada da Semana da Reconstrução Mamária, no Parque das Barrigudas, em outubro, mostrou aquilo que os números não mostram: mulheres que venceram a doença e recuperaram também a autoestima. E é bom lembrar que a reconstrução da mama é um direito garantido em lei, no SUS e nos planos de saúde, coisa que muitas mulheres ainda desconhecem.
Os mutirões de consultas, exames e cirurgias que se multiplicam nesta época cumprem um papel enorme. Encurtam filas e chegam a quem não teria acesso de outra forma. Mas o mutirão apenas abre a porta. Quem organiza o caminho é uma avaliação médica bem feita, e ela não começa pelo pedido de exame. Começa pela conversa: quem na família teve câncer, de que tipo e com que idade? Pai, mãe, irmãos, tios e avós, dos dois lados.
Essas perguntas mudam condutas. Parte dos cânceres de mama e de próstata é hereditária e está ligada a alterações em genes como o BRCA1 e o BRCA2 (não se preocupe com a nomenclatura, é só para saber que tem fundamentação genética – pode ser herdada. Pouca gente sabe que a mesma alteração que aumenta o risco de câncer de mama e de ovário na mulher também aumenta, no homem, o risco de câncer de próstata, de pâncreas e até de mama. O câncer da mãe interessa ao filho, e o câncer do pai interessa à filha. Quando a história familiar pesa, com vários casos, diagnósticos antes dos 50 anos ou câncer de mama em homem, o médico pode antecipar o rastreamento e indicar o aconselhamento genético. Nem todo mundo precisa de teste genético, mas ninguém deveria sair de uma consulta sem ter sido perguntado sobre a própria família.
Para quem é jovem, o recado é conhecer o próprio corpo e a história da família. A mulher que percebe um nódulo, a pele da mama repuxada ou secreção no mamilo não deve esperar chegar à idade da mamografia. O rapaz com pai ou irmão que teve câncer de próstata precisa contar isso ao médico, porque o calendário de exames dele pode ser outro. Ser jovem não protege ninguém.
Para quem já passou dos 40, também há o que fazer. Desde setembro de 2025, o SUS garante a mamografia às mulheres de 40 a 49 anos que desejarem fazer o exame, após conversa com o profissional de saúde, e dos 50 aos 74 anos o rastreamento é feito a cada dois anos. Para os homens, a Sociedade Brasileira de Urologia orienta conversar sobre o PSA e o exame da próstata a partir dos 50 anos, ou dos 45 para quem tem histórico familiar ou é negro, sempre numa decisão tomada junto com o médico, pesando benefícios e riscos de cada caso. E vale aproveitar a consulta por inteiro. Quem vai ao médico pela mama ou pela próstata deve sair também com a pressão medida e com a glicose e o colesterol avaliados. Ainda bem que tenho recebido, com frequência, pacientes que foram ao ginecologista e ao urologista por uma causa e lá descobriram a pressão arterial elevada.
Em dezembro, as fitas saem das vitrines, mas a doença não tira férias. O melhor uso destes dois meses é transformar a campanha em hábito: marcar a consulta, levar anotada a história da família e fazer os exames indicados para a sua idade e o seu risco. Cláudia e seu Antônio descobriram a tempo. A saúde de ninguém deveria depender de sorte.