O Brasil já tem mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, segundo o Censo de 2022: cerca de uma em cada seis. E, no entanto, continuamos a desenhar cidades, casas, serviços e rotinas como se todos tivéssemos, para sempre, trinta anos, joelhos firmes e reflexos rápidos.
Quem acompanha idosos no consultório, no hospital ou dentro de casa sabe que o envelhecimento raramente chega como um evento. Chega como um conjunto de pequenas perdas que se somam em silêncio. A massa muscular diminui, fenômeno que a medicina chama de sarcopenia. O equilíbrio se torna mais instável. A visão e a audição perdem nitidez. O tempo de reação se alonga. A memória, que antes guardava tudo, começa a escolher o que reter.
Isoladas, parecem pequenas. Juntas, compõem o que os geriatras descrevem como fragilidade: um estado em que o organismo perde a reserva para enfrentar o inesperado. O idoso frágil não está doente o tempo todo, mas está a um passo de adoecer: uma gripe, um remédio a mais, um tapete solto, uma noite mal dormida.
O passo fica menos firme. A mão que segura o copo treme. Diante de uma escada, de uma calçada quebrada ou de uma rua movimentada, surge a hesitação. O risco maior, porém, não está nela. Está quando o perigo não é percebido a tempo, em que o julgamento chega com atraso e em que já não há força suficiente para reagir e corrigir o rumo.
Os números confirmam o que a prática ensina. Segundo a Organização Mundial da Saúde, entre 28% e 35% das pessoas com mais de 65 anos sofrem ao menos uma queda por ano, proporção que sobe para 32% a 42% depois dos 70. Uma queda, nessa idade, raramente é só uma queda. Pode significar fratura, internação, imobilidade e, muitas vezes, o início de uma dependência que não tem volta. E traz o medo de cair de novo, que leva o idoso a andar menos e, paradoxalmente, a ficar ainda mais frágil.
Meu pai, por exemplo, há dois anos vive imobilizado em leito domiciliar. Caiu, bateu a cabeça no piso do quarto ao lado da cama, teve um sangramento intracraniano, foi operado, teve complicações e segue em estado semivegetativo. Sei bem, portanto, o que é o transtorno que as limitações do corpo podem trazer para o próprio idoso e para os que o amam e estão em seu entorno.
Há, porém, uma outra dimensão do envelhecimento que não aparece na radiografia: a solidão. A OMS estima que a solidão esteja associada a mais de 871 mil mortes por ano no mundo, cerca de cem a cada hora, e que o isolamento social atinja até um em cada três idosos. Solidão e isolamento estão ligados a maior risco de doença cardíaca, acidente vascular cerebral, diabetes, depressão e declínio cognitivo.
Como cirurgião cardíaco, aprendi que um coração pode estar anatomicamente perfeito e, ainda assim, adoecer de abandono. O idoso precisa de ajuda para coisas triviais, como abrir um frasco, subir um degrau ou lembrar o horário do remédio. Mas precisa, sobretudo, de amparo para a mente: de alguém que escute, que lembre junto, que dê sentido aos dias.
As dificuldades naturais do envelhecimento não devem ser tratadas como fardo, mas como um projeto coletivo. Por isso, penso que soluções precisam ser pensadas e desenvolvidas por nossos governantes e por toda a sociedade em si.
Primeiro, mobilidade sem obstáculos. Menos escadas e mais rampas e plataformas de acesso
Calçadas niveladas, sem degraus improvisados. Corrimãos dos dois lados. Iluminação adequada (ah, como isso é importante – iluminação apropriada!). Banheiros adaptados em prédios públicos e privados. As normas de acessibilidade já existem; falta transformá-las em prioridade de obra e de fiscalização. Uma cidade boa para quem anda devagar é boa para todos.
Segundo, socorro rápido dentro de casa
A maior parte das quedas e das descompensações acontece no domicílio, muitas vezes quando o idoso está sozinho. Sistemas de monitoramento, como botões de alerta, sensores de queda e acompanhamento remoto de sinais vitais, já são tecnicamente acessíveis. O que falta é integrá-los às unidades básicas, ao SAMU e às equipes de saúde da família, para que o pedido de ajuda não termine em uma central sem resposta, mas em atendimento efetivo. Treinar mais pessoas da comunidade em primeiros socorros também ajuda no suporte mais rápido e adequado.
Terceiro, cuidado com a saúde mental
Grupos de convivência, atividade física orientada, oficinas de memória e apoio psicológico não são luxo: são prevenção. A comissão internacional da revista The Lancet sobre demência (2024) estimou que quase metade dos casos poderia ser evitada ou retardada com o controle de fatores modificáveis, entre eles o isolamento social, a perda auditiva não tratada e a inatividade física.
Quarto, e talvez o mais importante: a convivência entre gerações
Programas que aproximam jovens e idosos, em escolas, universidades, projetos de extensão e voluntariado, trazem benefícios de mão dupla. O jovem aprende paciência, história e perspectiva. O idoso reencontra a energia vital, o riso e a sensação de ser útil. No contraste natural entre as gerações, um lembra ao outro quem foi e quem ainda pode ser. Universidades e escolas de saúde têm aqui papel insubstituível. Nessa miscigenação das gerações podem surgir os elos que fazem com que idosos sejam menos resistentes a conselhos e aceitem mais as sugestões de segurança e conforto.
Envelhecer não é falhar. É viver o suficiente para precisar dos outros. Penso, firmemente, que a medida de uma sociedade não está na velocidade dos seus mais fortes, mas na segurança com que permite caminhar os seus mais frágeis.
Todos nós, se tivermos sorte, chegaremos lá. A pergunta que cada um deve fazer hoje é simples: em que mundo eu quero envelhecer? A resposta começa agora, no degrau que trocamos por uma rampa, na visita que deixamos de adiar, na mão que oferecemos sem que ela precise ser pedida.
Nosso caminho pode ser trilhado com mais sensibilidade, com a percepção de dias que passam e momentos que não voltarão. Assim, quem ampara um idoso hoje está, na verdade, preparando o caminho por onde ele mesmo vai passar amanhã.