Quem trabalha em pronto-socorro conhece bem a cena. Madrugada, uma pessoa chega com o coração disparado, falta de ar e a certeza de que está infartando. Os exames vêm normais. O coração está bem. O que pesa é outra coisa, que não aparece no eletrocardiograma e que, muitas vezes, a própria pessoa nunca disse em voz alta.
Esse silêncio tem números. Em 2017, a Organização Mundial da Saúde estimou que 9,3% dos brasileiros convivem com algum transtorno de ansiedade, a maior proporção entre os países avaliados. Enquanto isso, a venda de antidepressivos nas farmácias do país cresceu cerca de 64% em apenas cinco anos, entre 2014 e 2019. Ainda consumimos menos do que países como Islândia, Portugal e Canadá, mas o nosso consumo cresce em ritmo mais acelerado que o de boa parte deles.
E há quem carregue um peso maior. Segundo uma revisão de estudos brasileiros, as mulheres usam antidepressivos com frequência bem maior que os homens, e os idosos mais que os adultos: 12,2% contra 5,6%. No caso dos ansiolíticos, como o clonazepam e o diazepam, o uso é mais alto entre mulheres de 40 a 59 anos. Nessa faixa, mais de uma em cada dez recorreu a eles no último ano.
Não existe uma explicação única. Vivemos uma revolução tecnológica que atinge todas as gerações ao mesmo tempo. A informação chega sem pausa, pelo celular, pelas redes e agora também pela inteligência artificial, e boa parte dela precisa ser checada, porque nem tudo é verdade. A mente não desliga. O resultado aparece nos consultórios e nas unidades de saúde em forma de insônia, irritabilidade e angústia. E aparece também no corpo, porque o estresse constante pesa sobre o sono, a pressão arterial, o peso e o coração.
Para muitas mulheres, a sobrecarga é bem concreta. É a profissional que responde mensagens do trabalho enquanto prepara o jantar, acompanha a tarefa dos filhos e ainda se cobra por não dar conta de tudo. Essa cobrança não tira folga, nem na hora de dormir.
Com os idosos, o peso é outro. Há a consciência de que o tempo ficou mais curto, os planos que ficaram pelo caminho, as escolhas feitas para agradar os outros e as relações que não foram cuidadas. Soma-se a isso um corpo que já não responde como antes. E, muitas vezes, a solidão: o almoço de domingo que antes enchia a casa e hoje cabe em um prato só.
Remédio, psicoterapia e convívio social, cada um na medida certa, ajudam a aliviar os sintomas e a tornar a vida mais leve. Os medicamentos, é bom lembrar, devem ser usados sempre com prescrição e acompanhamento médico. O problema é que pedir ajuda exige uma força que quem está sofrendo nem sempre tem. Por isso, quem está por perto faz tanta diferença.
Como nos ensinou Cristo, somos chamados a cuidar uns dos outros. Isso começa com gestos simples: deixar o celular de lado por alguns minutos, olhar para quem está ao lado e perceber quando algo mudou. Quem se afasta, quem perdeu o gosto pelo que gostava, quem responde "tudo bem" rápido demais pode estar fazendo um pedido silencioso de socorro. Podemos ser a ponte entre essa pessoa e quem pode ajudá-la.
O clichê continua verdadeiro: prevenir é o melhor caminho. Dormir bem, movimentar o corpo, diminuir o tempo de tela e, principalmente, falar sobre o que se sente. Dividir a dor não a faz desaparecer, mas diminui o peso que ela exerce sobre cada dia.
A Universidade de Harvard acompanha, desde 1938, a vida de centenas de pessoas em um dos estudos mais longos já feitos sobre a vida adulta. A conclusão mais consistente não tem a ver com dinheiro, cargo ou sucesso. O que mais protege a saúde e a felicidade ao longo dos anos é a qualidade das relações. Ter com quem contar, alguém com quem se abrir e de quem ouvir um conselho sincero. Num tempo em que se medem amizades por número de seguidores, vale lembrar que conexão verdadeira se constrói de outro jeito.
Talvez o caminho para atravessar dias tão acelerados esteja em algo antigo e simples. Nenhuma angústia fica tão pesada quando é dividida em volta de uma mesa, ainda mais se for a farta mesa mineira, com café passado na hora e tempo para conversar.
Se você ou alguém próximo estiver passando por um momento difícil, procure a Unidade Básica de Saúde ou o CAPS da sua cidade. O CVV atende gratuitamente, 24 horas por dia, pelo telefone 188.