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Cuidador

Gostamos muito de reverenciar tronos, ídolos, expoentes de brilho muitas vezes questionáveis, esquecendo-nos da importância...

Ricardo Cavalcante Motta
Publicado em 13/03/2016 às 11:36Atualizado em 16/12/2022 às 19:45
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Gostamos muito de reverenciar tronos, ídolos, expoentes de brilho muitas vezes questionáveis, esquecendo-nos da importância essencial do simples.

Bom seria dedicarmos a devida atenção a humilde e efetiva ação, como a do jardineiro, que proporciona a exuberância da flor. Ele que se glorifica singelamente apenas pela admiração da beleza do jardim. Agrada-se com o seu perfume natural. Contenta-se em ofertar ao mundo aquela sublime visão. Tal como ele, são tantos. Vejam o garçom, cuja vida é servir. Na construção do geral, do sonho universal, a dinâmica não pode, então, se focar apenas no excelso individual. O especial, em qualquer padrão, merece valor.

A propósito. Em novas lições, deparei-me com o mal de Alzheimer, visto como um velório de vivo. Passei daí à necessidade de conviver com a gentil figura chamada de cuidador. Comecei a observar. Pessoa que pacientemente destina por nós aos nossos amados entes enfermos os cuidados que raro temos preparo para doar.

Que exercício maravilhoso. Precisa ser vocacionado. Receber um sopro celestial. Discretamente e carinhosamente, zela e cuida daquele que, inconsciente, não pode retribuir nem mesmo em gratidão verbal. Lança um manto fraterno de amor. Pratica uma comunicação penetrante, pelos toques, olhares, gestos, sons de gemidos ou sorrisos. E ouve tantas estórias repetidas, conta outras, canta para ninar. Banha, alimenta, troca roupas, fraldas, limpa fezes. Enfim, sublima uma vida que, para todo o entorno, numa visão limitada, parece já ter deixado de ser.

Faz àquele que nem logrou antes conhecer. E não aguarda condecorações. Buscamos glórias, aplausos, reconhecimento, luzes. É da nossa fraqueza humana que temos que vigiar. Mas há esses nobres sem títulos, que dispensam tais festejos, que se contentam em ter o bom olhar de Jesus. São exemplos enviados.

Tenho como certo, existem anjos entre nós. Observem.

Ricardo Cavalcante Motta

Juiz de Direito

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