A sociedade brasileira é uma sociedade, para dizer o mínimo, curiosa. Não que outros povos...
A sociedade brasileira é uma sociedade, para dizer o mínimo, curiosa. Não que outros povos não o sejam, cada um com suas idiossincrasias, suas manias e particularidades, mas os brasileiros, nem todos – é bom esclarecer –, têm se destacado em alguns aspectos.
Ilustrativo é o que acontece no caso do enfrentamento da miséria, que ainda aflige um contingente significativo da população. Refiro-me aos abnegados benfeitores que dizem lutar contra esse flagelo. Difícil ver um grupo mais solidário, dedicado, bondoso. Admirável! O que é curioso é que muitos deles preferem se dedicar à caridade ao invés de apoiar medidas e legislação capazes de resolver o problema. Preferem distribuir cobertores e pratos de sopa a discutir políticas públicas que poderiam mudar a condição precária dos moradores de ruas. Preferem organizar eventos chiques para arrecadar fundos para os pobres a enfrentar as causas que levam à pobreza. Não é curioso?
Os brasileiros gostam de se deslocar de um lado pra outro. Nas cidades, milhares de pessoas vão para o trabalho, para as escolas, para atividades de lazer utilizando trem, metrô, ônibus, carro, motocicleta, bicicleta, etc. Desde a década de 1950, entretanto, que eles adquiriram pelos automóveis um apreço especial. Uma beleza! Belos e modernos edifícios residenciais se tornam sucesso de venda quando oferecem muitas vagas de garagem. Uma residência só é boa se tiver vaga para vários carros. Estabelecimentos comerciais idem. Para sustentar um tráfego colossal foi necessário construir uma rede fantástica de postos de combustível, de oficinas mecânicas, de estradas, de vias modernas de trânsito rápido e de aprovar uma legislação capaz de disciplinar o caos. Sim, o caos! E os brasileiros aprimoraram um arcabouço impressionante de leis e de normas para organizar o trânsito que se adensa cada vez mais. Criaram obrigações, sinalizações e punições, muitas punições, radares, redutores de velocidade, pedágios, policiamento, etc. Mas se descuidaram da educação para o trânsito. Atravessar uma rua, mesmo com o sinal fechado, é uma temeridade. O país apresenta um alto índice de mortes e de mutilações em acidentes, atropelamentos e desrespeito aos ciclistas. Nos veículos particulares, por exemplo, circular sem o cinto de segurança é punido com multa. Curioso é ver o que acontece nos ônibus urbanos. No seu interior não se exige o uso dos cintos, e muitos passageiros viajam de pé, mesmo em altas velocidades, em curvas, e com o veículo cheio. Não é curioso?
Com o meio ambiente, então, eles são campeões em excentricidade. Para começo de conversa, nas comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente, em junho, em plena seca, plantam árvores. Depois, deixam de aguar, e elas morrem todas! Não é curioso? Muitos consideram sujeira as folhas secas que caem e exigem que se cortem as árvores. No entanto, insistem no hábito de jogar sacolas plásticas, bituca de cigarro, latinhas, etc. no chão, nas praias, nas ruas. Mas reclamam da sujeira das folhas! Curiosos esses brasileiros! Não são?