Já era tão tarde, era tão inverno, era tão meio caminho andado, meias palavras mal ditas, era enfim tão tristes aqueles anos de “quase” tudo aquilo. Estar ao meio, aqui e quase lá e não estar em lugar nenhum. As certezas eram apenas minhas: mãos frias e coração quente. Eram olhares lacrimejantes a espera de um “sim, tom verde esperança”. Sabe quando sua perna treme inconsciente? Não era TOC, não era ansiedade paralisante, era a mais pura e violenta vontade de ESTAR. Sentimento de querer comprimir peito a peito como o mais forte e violento abraço que uma pessoa poderia desejar a outra. Era aquele sorriso meio de lado, mas completo de amor, tinha também aquele sorriso com todos os dentes, estes dedicado somente a você. Os outros mereciam apenas os sorrisos cotidianos, supostamente obrigatórios em minha mente.
Foram também noites de ligações mal completadas “se não atender no terceiro toque eu desligo. Se atender eu falo o que?”. Para nós eram sempre as melhores trilhas, não as de filme, as de vida real. A nossa trilha. Concordo em dizer que não poderiam ser chamadas de apenas “sonoras”, elas para mim gritavam. Era ensurdecedor escutar tudo aquilo sozinho, queria poder ter dividido com você não somente nestas linhas que escrevo, mas em horas, dias ou talvez meses. Em certos momentos, presença é indispensável.
Eram dias de poemas de Drummond “O amor antigo tem raízes fundas, feitas de sofrimento e de beleza”. Dias de autoaceitação da realidade ali disposta. Talvez você indo, eu de longe assistindo as várias e pontiagudas partidas. Foram dias na busca por alguns daqueles textos de autoajuda, que só podem ser lidos na alta madrugada, solitário e em voz baixa, bem baixinha. Ah, mas como eu desejei que você pudesse escutar aqueles quase sussurros motivacionais. Minha irmã no quarto ao lado, tenho certeza, decorou vários deles.
Era sim um meio olhar. Dúvidas engarrafadas nas bebedeiras de fim de semana: “vai ou não vai? É hoje?” Era a busca desenfreada pelo bom papo de sempre, as piadas de sempre, os risos de sempre. Foram momentos de muita espera. O SMS que poderia ter chegado às 3 da madrugada. Aquela festa tipo casal que nunca fomos. O cinema meio de semana, eu adoraria ter ido assistir “Meia noite em Paris”, comendo pipoca ao seu lado. O Woddy Allen é realmente inspirador.
Ando escutando muito a providencial e linda música METADE, cantada graciosamente pela Adriana Calcanhoto. Uma canção de contestação da presença, que antes, sabe antes? Eu não a entendia, mas se hoje aquele verso em que ela pergunta “Onde será que você está agora?” fosse feita a mim, eu responderia com a sinceridade que todo esse sentimento me impôs: “Está e estará sempre guardado no álbum de minhas mais belas lembranças”.