Há certas dores que pregam no peito e que não conseguimos tirar, nem com o ódio, nem com o remorso, nem com a vingança ou com o próprio perdão.
São dores mais fortes que nós. São mais fortes que o passar breve do nosso tempo, considerando que até o tempo de toda uma vida é breve. Perceba.
Amigo meu perdeu um filho.
Confessou-me, depois de anos, que é insuportável. Foi de acidente, pior que outro que perdeu de suicídio, mas sua dor, mesmo assim, disse-me, não foi superada.
Ganhou o mundo, dinheiro, honra, respondeu com vitórias aos que dele outrora duvidaram, mas confessou-me, nenhum triunfo superou a dor de enterrar o caçula, com seu nome, com suas feições. E o moleque, dizia, morreu trabalhando. Observou que a perseguição da dor não aceitou nenhum desvio, fosse qual fosse.
É mesmo assim esse viver. Sem amparo na lógica maior, somente na rasa lógica ao nosso alcance é que nos apoiamos. Daí para frente é do alcance infinito, na profundidade da outra dimensão. Às vezes precisamos mais tempo que o da própria vida! Há outras dores diferentes por seus próprios motivos, mas que também não passam. Dores incontornáveis que nos obrigam a conversar com a resignação, com a humildade e a devoção. Teste de confiança, de fé, de humildade, de evolução.
Dores que não dissipam nunca, permanecem até o encontro com a outra dimensão quando, talvez, apoiados noutro patamar, possa vir a compreensão.
Vida boa. Mas vida dura. Vida de provação!