Seleção argentina enfrenta dúvidas sobre liderança e sobre quem herdará a camisa 10 após o fim do ciclo do craque do Inter Miami
A aposentadoria de Lionel Messi da seleção argentina reabriu no país uma questão que assombra o futebol local desde os anos 1990: como preencher o vazio deixado por uma lenda. Com a saída do camisa 10, a Argentina revive o cenário vivido após a despedida de Diego Maradona e passa a conviver com mais perguntas do que respostas sobre o futuro da Albiceleste.
As principais dúvidas envolvem quem assumirá a liderança da equipe e quem herdará a camisa 10, número que pertenceu tanto a Messi quanto a Maradona. Jogador de uma geração, Messi acompanhou argentinos de até 30 anos que praticamente não conhecem uma seleção sem ele, após mais de 20 anos de trajetória.
Correspondente do jornal argentino Diário Olé na Copa do Mundo de 2026, o jornalista Diego Macías avalia que a transição passa por dois pontos distintos: a liderança e o uso da camisa histórica.
"Creio que a camisa de número 10 não necessariamente tem que ser o líder da equipe, pois Messi tinha a camisa 10 e nem sempre foi líder do time. São dois passos. O primeiro ponto é entender quem pode assumir a liderança, que imagino que esteja entre Enzo Fernández, Julián Álvarez. E usar a número 10 vai ser difícil encontrar um nome que possa jogar sem sentir que esteja sendo comparado. Hoje, há vários candidatos, como Nico Paz, Mastantuono e Aranda, que é um jovem que atua no Boca Juniors e tem uma projeção importante", afirmou Macías.
A comparação com o passado tem motivo. Campeão do mundo em 1986, Maradona se aposentou da seleção na Copa do Mundo de 1994, quando tinha 33 anos e foi excluído do torneio após ser pego em exame antidoping. Sua saída marcou uma seca de 28 anos sem títulos, encerrada apenas em 2021, quando Messi e companhia derrotaram o Brasil na final da Copa América, no Maracanã.
Entre a despedida de Maradona e a ascensão de Messi, a Argentina apostou em nomes como Ariel Ortega, Pablo Aimar, Juan Sebastián Verón e Riquelme, mas nenhum deles conseguiu ocupar o espaço deixado.
"A saída de Maradona foi um golpe duríssimo. Foi um golpe duríssimo porque, independentemente do fato de a consistência e a estabilidade de Maradona nunca terem sido as mesmas de Messi, ele sempre foi o salvador, o cara que aparecia quando as coisas ficavam difíceis e, no fim das contas, acabou sendo o arquiteto de um título da Copa do Mundo", recordou o jornalista.
Após a saída de Maradona, a Argentina só voltou a uma final de Copa do Mundo 20 anos depois. Sob o comando de Messi, a seleção esteve em três das últimas quatro decisões de Mundiais.
Para Macías, a ausência do craque será inevitavelmente sentida. "Creio que será muito difícil, pois é preciso ver que jogador conseguirá se transformar num jogador determinante, que ganha partidas. A Argentina precisa ver quem será esse jogador e, inevitavelmente, vai sofrer essa falta. Nos Mundiais após o Maradona, a Argentina se armou bem como equipe, mas nunca conseguiu chegar a uma fase importante de Copa", disse.
Outra indefinição envolve o técnico Lionel Scaloni, que tem contrato até dezembro de 2026 e ainda não decidiu sobre seu futuro. Ele deve se pronunciar sobre a aposentadoria de Messi durante a chamada "Super Data-Fifa", entre setembro e outubro.
Na avaliação de Macías, a saída de Messi não deve influenciar a decisão de Scaloni sobre permanecer ou deixar o cargo, mas pode representar uma nova missão: montar uma equipe apoiada em projetos para o futuro. "Creio que Almada, Mastantuono são projetos. Bons jogadores", afirmou.