Desde os primórdios do futebol – no tempo em que o jogador defendia um clube mais por amizade e amor do que por cifras milionárias – as torcidas já existiam.
Aliás, foram as torcidas as principais razões para que outros clubes fossem surgindo. É do torcedor a responsabilidade por animar o estádio. Cantar, fazer coreografias e tudo mais. Caso não existisse o torcedor, o futebol também não existiria.
Mas o torcedor também precisa do seu time de coração. Aliás, assim como precisa do seu clube querido, o torcedor necessita, e muito, do clube e torcedor adversários! Afinal, qual seria a graça de uma vitória se não houvesse com quem fazer aquela piadinha do dia seguinte? Não haveria graça.
Por mais que a hipocrisia faça parte da vida de muitas pessoas, falar em ética entre torcedores é um tanto quanto discutível. Torcer contra o seu rival não é falta de ética e sim uma ação natural, tão natural quanto torcer pelo seu clube. Ética é mais do que não fazer piadas, apostas engraçadas ou comentários sarcásticos.
Falta de ética, torcedor, é agredir o próximo, ir ao estádio para brigar ou ofender alguém. Falta de ética é roubar ou passar alguém para trás. Falta de ética é não saber perder e – pior ainda – não saber ganhar!
Torcer por um time de futebol é coisa de paixão! E não me peçam, porque eu não saberia explicar tal paixão. Não entendo nem mesmo a paixão das pessoas umas pelas outras, que dirá a paixão por um clube.
Mas talvez, só talvez, haja uma explicação. Ora, é no futebol que muitas pessoas encontram um motivo de riso fácil. Talvez um dos poucos motivos para sorrir em um mundo de tanto sofrimento, guerras, doenças, mentiras e maldades.
Mas, convenhamos, o sofrimento por uma derrota do seu time não pode jamais ser maior do que a tristeza provocada pelo desemprego, pela miséria, fome e pela face da morte trazida pela guerra.
Porém, amigo leitor, nada de fanatismo. Tudo o que é bom e saudável pode ficar ruim e se tornar maléfico ser for vivido de forma fanática e exagerada. Vamos com calma! É só um jogo, um esporte. Hoje se ganha, amanhã se perde e no final, bom mesmo é torcer, aproveitar o momento com os amigos e pular de alegria...
Nada de brigar com o amigo, com o vizinho, com a(o) namorada(o) ou com um desconhecido, que conheceu na hora do jogo! Nada disso! Afinal, o jogo sempre acaba e a vida continua.
Quando a coisa começa a lhe fazer mal, deixe-a de lado. Isso vale para todos os vícios, inclusive para o de torcer! E se a coisa faz mal àqueles que te cercam, olhe bem para dentro de si e reavalie suas ações.
Mesmo quem não concorda com uma palavra dita até agora, há de convir que a vitória só tem graça quando há um torcedor adversário para você tirar aquela casquinha, fazer aquela piadinha, etc. Está aí a graça da coisa! Eu, por exemplo, sempre vou fazer piada com os clubes rivais ao meu! Isso faz parte do ofício de torcer.
Apelar com brincadeiras desse tipo é assinar um comprovante de ausência total de espírito esportivo. Brigar por causa de uma provocação adversária é demonstrar por A + B a falta de equilíbrio e discernimento das coisas.
Partindo do pressuposto de que o futebol é um espelho de nossas vidas, nada mais justo do que fazer algumas observações: se você não respeita a opção de uma pessoa torcer por um time diferente do seu, há indícios de intolerância. Se não respeita uma brincadeira vinda de um adversário, há também sintomas de intolerância. Se você não admite uma derrota, por mais justa que ela tenha sido, há fortes traços de intolerância. Se você adora fazer piadinhas com o colega do trabalho por causa do futebol e quando ele faz o mesmo, você apela, então, você é intolerante e deveria rever seus conceitos.
Futebol é e deve ser sinônimo de alegria, se for diferente disso há algo muito errado. Se até na hora da vitória o torcedor arranja um motivo para brigar, ele é tudo, menos torcedor.
É preciso saber viver, amar, torcer...