REI

Há 70 anos, Pelé marcava o primeiro dos 1.283 gols de sua carreira

Ainda sem completar 16 anos, o jovem entrou no segundo tempo de um amistoso do Santos e inaugurou uma lista histórica

Publicado em 07/09/2026 às 10:22
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Foi em 7 de setembro de 1956 que um garoto de 15 anos, 10 meses e 15 dias entrou em campo pela primeira vez com a camisa principal do Santos e balançou as redes. Ali começava a coleção de 1.283 gols atribuída a Edson Arantes do Nascimento, o Pelé.

O jogo não tinha grande peso. Tratava-se de um amistoso contra o Corinthians Futebol Clube, de Santo André, o chamado Corinthinha, apelidado de Galo Preto da Vila Alzira. A imprensa da época chegou a estranhar o fato de o técnico Lula ter escalado a formação titular do Santos, que naquele momento defendia o título paulista conquistado em 1955.

O confronto aconteceu no estádio Américo Guazzeli, no bairro da Vila Alzira, em Santo André, que não existe mais. O Santos venceu por 7 a 1, e Pelé, que entrou apenas no segundo tempo, marcou o sexto gol da equipe.

A partida valia uma taça, o Troféu Independência, em referência à data em que era realizada, dia da independência do Brasil em relação a Portugal. Os relatos sobre público e detalhes das jogadas divergem entre si, mas não há dúvida quanto à participação do jovem no placar.

Naquele período, o então garoto costumava ser chamado por outros apelidos, como Gasolina, Dico, Bilé e Telé. Parte dos jornais registrou seu nome de formas diferentes na estreia.

Um dos episódios curiosos ligados àquele dia envolve o goleiro adversário. Zaluar, que sofreu o gol, passou a andar com um cartão de visitas em que se lia: "Zaluar - Gol de Rei Pelé - 001".

Houve também confusão nos registros oficiais. O mesário Nelson Cerchiari havia anotado o gol como sendo de Raimundinho, outro jogador que entrou na etapa final. A correção só ocorreu 13 anos depois, quando Pelé já se aproximava do tricampeonato mundial pela seleção brasileira.

Mais do que pelo futebol, o jovem chamava atenção pela educação. "Era um menino extremamente educado, incapaz de responder mal para qualquer pessoa. Era sempre 'bom dia', 'por favor', 'sim, senhor', 'não, senhor', 'muito obrigado'. Isso fez com que conquistasse muita gente, e todo o mundo gostava dele", contou em 2007 Urubatão, companheiro dele no Santos.

A rotina do garoto incluía tarefas simples pedidas pelos veteranos, como comprar cigarros para jogadores como Hélvio e Vasconcelos. Enquanto isso, treinava para aprimorar detalhes técnicos.

"Quando chegou, o Pelé chutava mal com a esquerda. Isso quando chutava. Ele começou a treinar, melhorar e algum tempo depois era tão bom com a esquerda quanto era com a direita", relatou o ponta-esquerda Pepe.

A ascensão foi rápida. Em 1957, Pelé já era peça importante do Santos e chegou à seleção. No ano seguinte, passou a ser chamado de rei.

O escritor Ruy Castro atribui a virada a uma vitória do Santos por 5 a 3 sobre o America, do Rio de Janeiro. Foi nesse jogo, segundo ele, que o menino nascido em Três Corações se tornou precocemente o Rei.

A consagração internacional costuma ser ligada à conquista da Copa de 1958, em texto da revista francesa Paris Match. Mas, em fevereiro daquele ano, antes do Mundial, o cronista Nelson Rodrigues já havia antecipado a comparação.

"Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola, e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento", escreveu Rodrigues na Manchete Esportiva.

A previsão se confirmou. Mas tudo começou sete décadas atrás, entre um cigarro comprado para os companheiros e outro, com um gol de menino discreto diante do Corinthinha, na Vila Alzira.

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