Eram tímidos e discretos. Somente nas quermesses religiosas aproximavam-se, mas já se miravam
Eram tímidos e discretos. Somente nas quermesses religiosas aproximavam-se, mas já se miravam desde a escola. Ele era balconista na loja do turco, que bem o considerava. Ela era dedicada funcionária da secretaria escolar. Ambos sistemáticos. Enfim, iniciaram um pacato namoro. Dividindo despesas, compraram um terreno no loteamento novo no alto da pequena cidade. Pagaram em longas prestações. Depois, da mesma forma, construíram uma agradável casinha, sem pressa. Já ia longe o namoro quando mobiliaram a casinha e daí passaram a visitar diariamente o local, para arejar, limpar, enfim, na verdade, para namorar... Toda tarde ele saía do serviço e ela estava na janela da casa do pai viúvo a esperá-lo. Ele residia com a mãe, também viúva. A mãe cuidava dele com todo mimo. Ela cuidava do pai com todo zelo. Seus irmãos já tinham tomado rumo próprio. Longos anos se passaram até que as cobranças sociais acirraram. Já era tempo de se casarem! A exigência era recorrente em todos os lugares, tornou-se insuportável. Cederam. Em cerimônia discreta consumaram o matrimônio. Mudaram-se para a casinha. Mas, algum tempo passou e chegou a fadiga daquela convivência conjugal padrão, por exigência convencional. Acharam enfadonha aquela vida longe da igreja matriz, do movimento central, além da preocupação com a solidão da mãe e do pai. Ela mal podia cuidar do pai. Certo dia assumiram a situação. Não queriam aquela vida de casados. Seguramente, resolveram pelo divórcio. Voltaram à casa dos pais sem nem mesmo definirem quanto aos bens. Vencidos poucos dias, ao sair do serviço, ele passou pela janela onde ela estava, como outrora. Ele a convidou para irem até a casinha...ver as coisas. Ela aceitou. No dia seguinte, o mesmo se deu, e isto foi se repetindo, como antes, até que ele novamente a tomou como namorada, mas estavam certos de que jamais pretendiam se casar novamente. Mantiveram o ritual diário de visitar a casinha... E foi assim que, indiferentes, disseram não às convenções e futricas sociais, tornando-se para sempre felizes namorados.
(*) Juiz de Direito