COMPORTAMENTO

Arte da espera pode ser aprendida e aperfeiçoada, garante especialista

Em um mundo cada vez mais acelerado e que estimula a impaciência, efeitos negativos como a frustração e a ansiedade têm solução, diz psicóloga

O Tempo/ Raphael Vidigal Aroeira
Publicado em 11/12/2024 às 09:07
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Arte da espera pode ser aprendida e aperfeiçoada, garante especialista (Foto: seandeburca/iStockphoto)

Arte da espera pode ser aprendida e aperfeiçoada, garante especialista (Foto: seandeburca/iStockphoto)

Há uma famosa peça de teatro cujo tema é, justamente, a espera, e, não por acaso, se chama “Esperando Godot”, do irlandês Samuel Beckett. Em 1972, Chico Buarque compôs a música “Bom Conselho”, em que subverte um dos mais célebres ditados populares. “Espere sentado/ Ou você se cansa/ Está provado/ Quem espera nunca alcança”, ironiza o compositor.

A professora aposentada Aparecida Melo, de 65 anos, admite que tem dificuldades em esperar, sobretudo diante de um compromisso agendado ou de uma “previsão de duração”. “Se me disserem para chegar às quatro horas, eu chego pontualmente. Se me disserem que a viagem vai durar duas horas, eu espero que ela passe em duas horas, mas, passou disso, perco a paciência”, assegura.

Com bem menos idade, o especialista em próteses dentárias Leonardo Oliveira, de 35 anos, faz um relato semelhante. “Não sou de esperar muito não, já fui embora de lugares porque não dei conta de ficar esperando. A gente já tem que esperar ônibus todo dia”, declara. Atuando na área de comércio exterior, Carla Lemos, de 40 anos, aparenta ter mais jogo de cintura nessas situações.

“Esperar faz parte da vida, cada pessoa tem suas obrigações, sua rotina, suas questões, e não podemos ter a ilusão de que as coisas vão acontecer no momento que a gente quer, é saber esperar, com tranquilidade, e aproveitar esse tempo ‘livre’ da melhor maneira possível”, avalia Carla. O técnico em informática Júlio D’Agostini, de 36 anos, tem pensamento semelhante. “Esperar é chato, mas, quando não tem outro jeito, o melhor é não se estressar”, opina.

Contrastes

A psicóloga Jaqueline Maia observa que existem “diferentes tipos de espera”. “Toda espera em que se tem alta expectativa pode gerar uma ampla gama de emoções, desde esperança até ansiedade e frustração. Isso vai depender de quais tipos de pensamento estão associados à situação”, esclarece a especialista, que afirma que “na terapia cognitivo-comportamental, entendemos que essas emoções são resultado das interpretações desses pensamentos”.

“Por exemplo, esperar por um resultado de exame de saúde pode provocar ansiedade, devido a pensamentos catastróficos, como ‘e se o pior acontecer?’, enquanto esperar por uma promoção pode gerar sentimentos de esperança e pensamentos de tranquilidade, como ‘eu sou bom no que faço’, levando a pessoa a estados de serenidade e bem-estar”, compara Jaqueline.

Ela aproveita para compartilhar “estratégias bem práticas para lidar com a ansiedade e a frustração”, voltada àqueles que têm dificuldade em esperar, como “praticar o foco no momento presente e aceitar a incerteza como parte da vida, reconhecer pensamentos automáticos negativos e substituí-los por interpretações mais realistas e construtivas, por exemplo trocar o ‘isso nunca vai dar certo’ pelo ‘eu não tenho controle total sobre o resultado, mas posso lidar com o que vier’, e focar as energias apenas no que você pode ter algum tipo de ação”, enumera a psicóloga.

Nesse último caso, ela sugere “elaborar uma lista das coisas que você controla e das que não controla”. O próximo passo seria “identificar ações concretas da lista anterior que podem ser realizadas enquanto você espera, como buscar mais informações ou se preparar para diferentes cenários, o que ajuda a canalizar a energia da ansiedade de forma produtiva”, afiança.

Aprendizado

Conhecidas técnicas de relaxamento, como “respiração profunda, meditação e exercícios físicos”, também são indicados para reduzir a ansiedade durante um processo de espera. Jaqueline salienta que “na espera saudável, existe um equilíbrio entre expectativa e ação”. “Ela motiva a preparação para eventos futuros e promove um estado de vigilância tranquilo. Esperar uma entrevista de emprego pode, por exemplo, inspirar a pessoa a se preparar e ensaiar respostas, enquanto mantém a confiança de que está fazendo o melhor possível”, destaca Jaqueline.

O outro lado da moeda é quando “preocupação e ruminação” dominam a cena. “Essa espera impede ações construtivas e pode levar à procrastinação ou à paralisia emocional. Uma pessoa que fica obcecada com ‘e se eu falhar?’ pode evitar se preparar, ficar ruminando pensamentos negativos sobre a entrevista, agravando uma sensação de impotência…”. 

O alerta de Jaqueline vem acompanhado de atitudes que podem alterar esse cenário, a partir de uma percepção de que “a arte de esperar pode ser aprendida e aprimorada”. A “divisão do tempo de espera” é um dos pilares dessa construção. “Planejar atividades enriquecedoras ou distrações produtivas enquanto se espera, como leitura, hobbies ou prática de exercícios é fundamental”, analisa a psicóloga.

Outro ponto seria a chamada “reflexão positiva”, a partir da manutenção de um diário com escritos de “gratidão, para equilibrar pensamentos negativos e cultivar o otimismo”. Por fim, Jaqueline orienta a autocompaixão. “Tratar a si mesmo com gentileza durante a espera, lembrando que as emoções difíceis são normais, é muito importante. Essas práticas constantes ajudam a transformar a espera em um período menos estressante e mais construtivo”, assevera.

Cultura e mundo conectado interferem

A psicóloga Jaqueline Maia não tem dúvidas de que a cultura é um fator decisivo na capacidade de espera. “A maneira como lidamos com a espera tem uma forte relação com fatores culturais e pessoais. Culturas que valorizam a paciência e a resiliência, como algumas tradições orientais, tendem a promover uma abordagem mais tranquila em relação ao tempo de espera. Já nas sociedades ocidentais, onde a rapidez e a eficiência são altamente valorizadas, esperar pode ser visto como obstáculo ou uma perda de tempo”, analisa a especialista.

De acordo com Jaqueline, outra interferência cada vez mais comum é a da conexão em tempo integral. “No mundo contemporâneo, mediado por telas e hiperconectado, a capacidade de espera foi significativamente reduzida. Em uma sessão, uma vez, um paciente me relatou que se sentia incomodado em esperar o tempo de três minutos do microondas e buscava, com muita ansiedade, fazer algo nesse tempo porque se sentia improdutivo”, exemplifica.

A psicóloga afirma que “a disponibilidade imediata de informações e serviços cria uma expectativa de gratificação instantânea, por elevar os níveis de dopamina no cérebro”, o que tem aumentado nossos quadros de impaciência. 

“Mudar esse cenário requer o cultivo da ‘tolerância à demora’ e uma reavaliação da nossa relação com o tempo, dedicando mais momentos para desconectar-nos das telas e conectar-nos com o presente, por meio de práticas como meditação,  atividades offline, e, principalmente, conexões reais, olho no olho. Assim, podemos recuperar um senso saudável de paciência e melhorar o controle emocional…”, arremata a psicóloga.

Fonte: O Tempo

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