Anvisa explica regras para bebidas energéticas, e cardiologista alerta para riscos do uso sem orientação
(Foto/Reprodução)
A venda de um energético com sabor "Tadalafila" reacendeu discussões sobre os limites entre marketing, consumo e saúde. A bebida está disponível à compra em diversos estabelecimentos em Uberaba. Após receber questionamentos de leitores, o Jornal da Manhã consultou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para entender se o produto está dentro das normas sanitárias e ouviu um cardiologista sobre os riscos que a banalização da tadalafila pode representar, especialmente entre jovens. A tadalafila é um medicamento vasodilatador indicado principalmente para o tratamento da disfunção erétil e da hiperplasia prostática benigna. O primeiro esclarecimento é que o produto comercializado não contém, necessariamente, o medicamento tadalafila em sua composição. O nome faz referência ao sabor da bebida, estratégia que tem chamado atenção dos consumidores e gerado dúvidas sobre a regulamentação do produto. Em nota enviada à reportagem, a Anvisa informou que bebidas energéticas são regulamentadas pela RDC nº 719/2022 e se enquadram na categoria de compostos líquidos prontos para consumo. A agência explicou que esses produtos podem conter substâncias como cafeína, taurina, inositol e glucuronolactona, desde que respeitados os limites máximos estabelecidos pela legislação. A regulamentação também determina que os rótulos apresentem advertências obrigatórias em destaque, como a recomendação para que crianças, gestantes, nutrizes, idosos e pessoas com enfermidades consultem um médico antes do consumo, além da orientação de não associar a bebida ao consumo de álcool. Segundo a Anvisa, a tadalafila possui indicação aprovada apenas para o tratamento dos sinais e sintomas da hiperplasia prostática benigna (HPB) em homens adultos, incluindo aqueles com disfunção erétil. A agência reforça que essa é a utilização cuja eficácia e segurança foram avaliadas e aprovadas pelos órgãos reguladores. Embora o energético não seja um medicamento, o uso do nome remete diretamente a uma substância amplamente conhecida pelo tratamento da disfunção erétil, o que tem levantado preocupações entre profissionais da saúde.Para o cardiologista Raelson Batista, a principal questão envolve a forma como medicamentos passam a ser associados a produtos recreativos ou de consumo cotidiano. “Do ponto de vista médico e de saúde pública, é perigoso quando produtos com apelo comercial, estético, sexual ou recreativo passam a transmitir a ideia de que medicamentos podem ser usados de forma banal, sem diagnóstico, sem avaliação de risco e sem orientação profissional”, afirma. Segundo ele, muitas pessoas acabam tratando a tadalafila como um suplemento ou estimulante sexual, ignorando que se trata de um medicamento com contraindicações, efeitos colaterais e interações medicamentosas. “A tadalafila tem ação farmacológica real. Ela não é inofensiva. O consumidor precisa entender que medicamento deve ser utilizado apenas com indicação médica”, destaca.O especialista alerta ainda para os riscos da combinação entre energéticos e tadalafila, prática que se tornou comum em alguns grupos, especialmente entre jovens. De acordo com Raelson, os energéticos contêm estimulantes como cafeína, taurina e guaraná, capazes de elevar a frequência cardíaca e a pressão arterial. Já a tadalafila atua como vasodilatador, podendo reduzir a pressão. “Quando essas substâncias são consumidas juntas, especialmente sem avaliação médica, pode haver uma sobrecarga cardiovascular. Essa combinação pode gerar palpitações, tontura, mal-estar, dor no peito, queda de pressão e, em pessoas predispostas, arritmias”, explica. O cardiologista ressalta que o risco não se limita a pessoas com doenças cardíacas já diagnosticadas. “Muitas condições cardiovasculares são silenciosas. O fato de a pessoa ser jovem não elimina o risco. Hipertensão, arritmias, alterações estruturais do coração e predisposições genéticas podem não apresentar sintomas até que exista um gatilho”, alerta. Entre os sintomas que exigem atendimento médico imediato após o consumo de substâncias com ação cardiovascular, o médico cita dor no peito, falta de ar, palpitações intensas, desmaios, tontura importante, sudorese fria, fraqueza súbita, alterações na fala e dores de cabeça intensas e repentinas. “Nessas situações, a orientação é procurar atendimento médico imediatamente. Não se deve esperar passar ou tentar compensar os sintomas com mais cafeína, álcool ou outras substâncias”, orienta. Enquanto o energético sabor "Tadalafila" segue despertando curiosidade nas prateleiras, especialistas defendem que a comunicação em torno desses produtos seja feita com responsabilidade para evitar interpretações equivocadas e estimular o consumo consciente.