COMPORTAMENTO

Especialista fala sobre como superar os desafios de trabalhar com amigos

Leila Said explica como conciliar relações afetivas e profissionais sem comprometer nenhuma das duas e indica estratégias perspicazes

O Tempo/Raphael Vidigal Aroeira
Publicado em 12/12/2024 às 08:34Atualizado em 12/12/2024 às 08:58
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Especialista fala sobre como superar os desafios de trabalhar com amigos (Especialista fala sobre como superar os desafios de trabalhar com amigos)

Há uma célebre frase, de origem desconhecida, às vezes atribuída a Nicolau Maquiavel (1469-1527), noutras a Getúlio Vargas (1882-1954), que se converteu numa espécie de ditado nacional, e que diz: “Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”. A força da expressão é reveladora de um modo de se relacionar próprio do povo brasileiro, que perpassa diferentes contextos sociais, e que coloca a amizade como valor superior aos demais. O vigilante Vinicius Moreira, de 37 anos, afirma, no entanto, que, quando se trata de trabalho, é preciso saber separar o joio do trigo. “Se precisar, mando um amigo embora. O profissionalismo deve estar acima de tudo”, garante Vinicius. 

Ariane Souza, de 38 anos, que atua como auxiliar de logística, parece falar a sério, brincando. “Já dou dura nos amigos que tenho no trabalho hoje, imagina quando virar chefe”, gargalha. Ela sustenta que “tudo, com jeitinho, se encaixa”, o negócio é ter tato, e declara que, além do trabalho, o emprego também deve servir para criar amizades. Já o soldador Leandro Monteiro, de 44 anos, não esconde seu “calcanhar de Aquiles”. “É meio difícil dar uma dura na galera que é nossa amiga sendo chefe, a gente fica meio com pé atrás”, constata. 

Assistente administrativo, Guilherme Coutinho, de 24 anos, colocaria em prática a filosofia maquiavélica ou getulista se um dia o poder lhe caísse nas mãos. “Os amigos eu não mandaria embora, mas os que eu não gosto seriam todos demitidos”, dispara. A costureira Dolores de Moraes, de 65 anos, trabalharia para “continuar amiga de uma pessoa mesmo se precisasse mandá-la embora”. Enquanto a vendedora de consórcio Ana Luiza, de 24 anos, procuraria um meio-termo. “Não precisa mandar embora, mas o amigo de trabalho às vezes precisa ouvir uma dura. A dica para a amizade não acabar é não levar as coisas para o coração”, vaticina Ana Luiza. 

Corda-bamba

Mentora em liderança, comunicação executiva, posicionamento no mercado de trabalho e estratégia empresarial, Leila Said concorda que não é simples se equilibrar na corda-bamba que une trabalho e amizade. De acordo com ela, o primeiro ponto é observar “se a pessoa tem capacidade técnica para desempenhar aquela função”. Afinal de contas, assim como a beleza, só amizade não põe mesa. Em seguida, Leila destaca que é fundamental “que os papéis estejam bem definidos, para que cada um tenha compreensão plena de suas responsabilidades no ambiente de trabalho”. 

“A comunicação precisa ser clara, não se pode supor que, pelo fato de a pessoa ser sua amiga, ela irá entender o que eu quis dizer nas entrelinhas”, explica a especialista. A recomendação é que regras sejam estabelecidas entre as partes e formalizadas, de maneira escrita, para que o espaço para as dúvidas e desentendimentos seja reduzido. “Desde o início, é importante que haja uma separação entre trabalho e amizade, ainda que haja uma convivência entre eles, para que a pessoa não leve tudo para o lado pessoal. É preciso saber separar essas instâncias”, sublinha Leila. 

Na visão da especialista, esse tipo de conduta vai justamente em direção a uma “defesa da amizade”. “Não devemos abrir mão da empatia, de conversar muito quando a situação ou decisão a ser tomada for mais dura. E a comunicação aberta e alinhada vai facilitar esse tipo de pendência”, observa Leila, que também indica definir “um canal específico de comunicação para falar só sobre questões profissionais e não embolar as coisas”.

Sinais de alerta

Entre os indícios de que a relação de amizade no ambiente de trabalho está começando a ficar estremecida, Leila enumera “alguns sinais de alerta claros, que não devem ser ignorados”. “Se as pessoas repentinamente param de se dedicar, ficam mais caladas, deixam de comparecer a reuniões e de emitir opiniões necessárias ou se você percebe a formação de ‘panelinhas’, é hora de começar a agir”, orienta. A criação de uma cultura de feedback, em que “as pessoas são encorajadas a falar e se posicionar, inclusive para apontar descontentamentos, vai favorecer com que, no caso de um mal-entendido, ele seja solucionado rapidamente”. 

Se o cenário se agravar e ressentimentos forem identificados, a dica é organizar “uma reunião de alinhamento para as pessoas falarem sobre seus medos, inseguranças, dúvidas e insatisfações”. Como tudo na vida, Leila avalia que trabalhar com amigos tem “pontos positivos e negativos”. “É sempre bom trabalhar com quem a gente gosta e confia, e, muitas vezes, compartilha dos mesmos valores que os nossos, a mesma visão de mundo, isso impacta em um ambiente mais agradável, leve”, diz. 

O outro lado da moeda é que “essa aparente comunicabilidade mais aberta pode se converter no contrário, gerando interpretações ambíguas e dúbias”. “O risco é haver um conflito pessoal e vocês acabarem perdendo a amizade”. Uma certa condescendência também pode interferir negativamente. “Às vezes, por se tratar de um amigo, a pessoa é levada a pensar, ‘tadinho, ele não dá conta’, o que acaba sobrecarregando um lado dessa relação e gerando desgaste”, aponta a especialista. 

Combinado não sai caro

Mentora em liderança e estratégia empresarial, Leila Said recupera a máxima de que o combinado não sai cara ao propor que sempre se faça um contrato ao trabalhar com amigos, para resguardar todas as partes. “Tudo que vai acontecer no futuro e pode gerar algum desconforto na amizade, é preciso ser mapeado e pensado antes”, salienta a especialista. Segundo ela, é preciso estabelecer normas, diretrizes e limites para que a relação seja conduzida com mais tranquilidade. 

“Não caia naquela história de ‘ah, no caminho eu te conto, a gente constrói juntos’. Não, tudo isso precisa ser definido antes, porque a situação e o contexto podem mudar. A gente vive de mudanças. Então é essencial que todos saibam, desde o início, como a coisa vai funcionar, para que o trabalho não contamine a amizade a ponto de inviabilizar uma coisa ou outra”, pondera Leila. “Lá na frente, todo esse cuidado servirá para resguardar a relação, permitindo que trabalho e amizade sigam fortes e prósperos”, arremata. 

Fonte: O Tempo

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