Fenômeno sempre fez parte de nossa cultura e está cada vez mais disseminado nas redes sociais; veja até onde ele pode ser encarado como benéfico ou prejudicial.
A troca de informações é um dos mais primitivos comportamentos humanos (Foto: Divulgação/Pixabay)
Participar de uma fofoca é um dos atos mais humanos que temos. Seja como ouvinte ou mesmo narrador, invariavelmente estamos comentando sobre a vida alheia. Obviamente, o assunto ainda é um tabu, uma vez que muitos o tratam como prejudicial às relações humanas. Porém, cada vez mais ele é desmistificado e reconhecido como parte de nossas interações pessoais desde a mais tenra idade, o que o fez adentrar na cultura pop, como no caso do podcast "Fofoca na Calçada", que tratamos nesta matéria aqui.
Para entendê-lo melhor, consultamos duas especialistas em comportamento humano: a psicóloga Íris Simões e a psicanalista Cínthia Demaria. Ambas afirmam que esse comportamento é social e seria legítimo tirar o estigma que recai sobre ele.
E, para não perder nenhum detalhe da fofoca – digo, da matéria –, resolvemos colocar a entrevista na íntegra, exatamente como elas nos responderam. Afinal, ninguém gosta de perder nenhum detalhe de uma boa conversa.
Íris Simões - Psicóloga de Mulheres
Um dos maiores podcasts do Brasil hoje é o Fofoca na Calçada. O programa teve como objetivo desmistificar o lado negativo da fofoca e levá-la de uma forma mais orgânica ao público, como se todos gostassem de comentar sobre ocorridos cotidianos, mas sem de fato julgar. Até onde você acha isso viável em uma sociedade tão plural?
“Na verdade, o ato de fofocar pode trazer mais intimidade para as pessoas. De forma inconsciente, a fofoca teoricamente seria um diálogo para não ser repassado para outras pessoas, o que causa a impressão de: ‘Se fulano está me contando isso, é porque eu sou especial’. Realmente, é muito legal sair para tomar um café com as amigas e fazer fofocas sobre as próprias vidas e fenômenos cotidianos.
A grande problemática está no fio entre estar em uma posição de julgadora sobre a vida alheia e partilhar informações e saberes sobre o mundo. Ou seja, como diria o pai da psicologia analítica: 'Pensar é difícil; por isso, a maioria das pessoas prefere julgar.' Quando as pessoas pensam que estão ilesas de falar qualquer coisa, aí mora o perigo.”
Somos seres complexos, com narrativas pessoais, mas que invariavelmente caem em uma narrativa comparativa com o outro. Talvez por isso esse comportamento da fofoca seja tão disseminado? Até onde é benéfico e prejudicial?
“Fofocar é benéfico quando utilizado como ferramenta de conexão e o assunto é sobre a sua própria vida. Por exemplo, Maria acabou de ficar solteira e está em uma nova fase de sua vida. É super válido ela falar sobre as viagens que anda fazendo sozinha pelo Brasil com suas amigas ou sobre qualquer assunto que faça sentido para aquele momento.
Agora, é prejudicial quando a pessoa deixa de viver a própria vida em sua totalidade, porque passa mais tempo comentando sobre a vida alheia do que investindo tempo e motivação nos seus próprios desejos e projetos.”
Mantendo a última pergunta, o tema outrora era um tabu e cada vez mais é tratado como uma amenidade cotidiana e um entrelaço de amigos. Até onde vê como perigoso e até onde observa nele algo benéfico?
“É importante tirarmos o peso negativo da fofoca e entendermos que ela pode ser uma forma legítima de socialização e uma necessidade humana de criar vínculos sociais. Na psicologia social, as interações ajudam na construção da identidade e no senso de pertencimento. Ao nos relacionarmos, compartilhamos experiências e valores, o que nos fortalece e fortalece as nossas relações.”
Cínthia Demaria - Psicanalista, doutoranda em Estudos Psicanalíticos pela UFMG
Um dos maiores podcasts do Brasil hoje é o Fofoca na Calçada. O programa teve como objetivo desmistificar o lado negativo da fofoca e levá-la de uma forma mais orgânica ao público, como se todos gostassem de comentar sobre ocorridos cotidianos, mas sem de fato julgar. Até onde você acha isso viável em uma sociedade tão plural?
“A nossa existência depende do outro, e já nascemos sendo falados. Antes mesmo do nascimento, somos nomeados, inseridos na linguagem e nas expectativas de quem nos rodeia. Assim, a fofoca precede a nossa existência, no sentido de que somos seres construídos pela interação com os outros.
Somos nomeados e subjetivados pelo outro. Na psicanálise, há discussões amplas sobre isso, como o estágio do espelho, onde o sujeito é definido pelo olhar do outro. Isso mostra que não somos sem o outro; somos moldados pelos laços e trocas da nossa época.
Esses laços nos colocam em regras sociais e nos ajudam a entender o que é aceito ou punido. Assim, a fofoca não é apenas algo trivial; ela tem papel importante na socialização e no aprendizado do que é certo ou errado.
Hoje, plataformas como podcasts e redes sociais amplificam essa dinâmica. Especialmente em contextos regionais, como Minas Gerais, onde a troca de histórias já faz parte da cultura, a fofoca funciona como um meio de identificação.
Ao saber sobre a experiência de outro, muitas vezes criamos laços e encontramos segurança ao perceber que não estamos sozinhos. Isso é especialmente relevante desde a infância, quando aprendemos regras sociais ao observar o que acontece com o outro.
No entanto, no contexto contemporâneo, o problema está na exposição. A fofoca, que antes ajudava a criar laços, hoje, quando viraliza, rompe essas conexões. Expor alguém publicamente sem um laço ou contexto pode gerar consequências graves, pois a viralidade dá uma proporção muito maior ao ato.
A exposição totalitária em redes sociais permite julgamentos rápidos e sem direito de resposta, o que é diferente de uma conversa em grupo.
Essa dinâmica não é nova. Sempre houve interesse pela vida de celebridades, como vimos no caso da princesa Diana, onde a exposição excessiva teve consequências trágicas. O que mudou foi a descentralização do controle. Hoje, a internet é uma ‘terra de ninguém’ com poucas punições claras.
Embora existam discussões sobre ética e regulação, ainda estamos engatinhando nesse sentido, e o caráter viral das fofocas torna as repercussões imprevisíveis.
Apesar disso, a fofoca tem um papel orgânico na construção dos laços sociais. Para pertencer a um grupo, é necessário diferenciar-se de outros, e a fofoca muitas vezes serve como essa ferramenta de distinção".
Somos seres complexos, com narrativas pessoais, mas que invariavelmente caem em uma narrativa comparativa com o outro. Talvez por isso esse comportamento da fofoca seja tão disseminado. Até onde ela é benéfica e prejudicial?
O julgamento, de certa forma, é inevitável. O problema surge quando ele se torna público, pois isso desautoriza e rompe uma regra social importante: respeitar o limite do outro. Expor alguém é prejudicial tanto para quem é exposto quanto para quem faz a exposição. Afinal, quem expõe também acaba se colocando em evidência de alguma forma. Nesse sentido, a viralização é algo que vejo como muito nocivo.
Essa comparação com o outro, como mencionei antes, é algo inevitável. Para ser algo, é preciso deixar de ser outra coisa, e isso é parte do processo de construção de identidade. Essa dinâmica cria laços, identificações e grupos, mas também estabelece separações. Antes mesmo de nascermos, nossos pais já nos colocam nessa lógica de comparação e pertencimento por meio da linguagem. Muitas vezes, apontar características do outro é o que cria vínculos, e é por isso que isso se dissemina tão amplamente.
No entanto, existem formas e formas de fazer essas comparações. O problema ocorre quando elas ultrapassam os limites do respeito ao outro. Além disso, a fofoca envolve outras questões importantes nos laços sociais, como a confiança. Por exemplo, em um ambiente de trabalho, espalhar algo dito em confiança pode gerar problemas sérios e prejudicar relações.
A fofoca, portanto, coloca em jogo várias dinâmicas sociais. Ela ajuda no estabelecimento de laços e identificações, mas também testa regras sociais, como a diferença entre o certo e o errado. Isso varia conforme o grupo ou contexto em que o sujeito está inserido. Apesar dos problemas, essa dinâmica é orgânica, porque a comparação está presente na própria constituição do "eu".
O "eu" não existe sem o outro. Para alguém ser "eu", é necessário saber quem é o outro. Isso reforça a importância da comparação na construção da identidade, ainda que precise ser feita com limites e respeito.
Mantendo a última pergunta, o tema outrora era um tabu e cada vez mais é tratado como uma amenidade cotidiana e um entrelaço de amigos. Até onde vê isso como perigoso e até onde observa nele algo benéfico?
A fofoca, quando exposta para muitas pessoas ao mesmo tempo, ganha um caráter viral, que é amplificado pelas redes sociais. Esse fenômeno apresenta problemas sérios, com repercussões significativas. No entanto, isso não é algo exclusivo da nossa época. O interesse por celebridades, por exemplo, sempre existiu. O que mudou foi a descentralização. Antes, havia um controle maior por meio de conselhos de ética e regras jornalísticas, como no caso da princesa Diana, onde a exposição excessiva teve consequências muito graves.
Hoje, a descentralização e a ausência de punições claras tornam a internet uma “terra de ninguém”. Ainda que existam implicações éticas, caminhamos a passos lentos em relação à regulamentação dessas práticas e suas consequências. O caráter viral das redes sociais aumenta a proporção das fofocas, transformando algo que poderia ser restrito em um fenômeno amplamente disseminado.
Apesar disso, a fofoca desempenha um papel social importante. Ela ajuda o sujeito a se inserir no jogo das regras sociais. O que é aceito ou não socialmente é muitas vezes partilhado entre semelhantes, e essa troca é essencial para a formação de grupos. Para fazer parte de um grupo, é necessário, de certa forma, não fazer parte de outro. Nesse contexto, a fofoca entra como uma ferramenta de distinção e pertencimento.
Esse processo é orgânico, assim como o próprio enlaçamento social do sujeito. Um exemplo disso pode ser observado na adolescência, onde grupos se formam em torno de interesses comuns, como tipos de música. Para que o grupo se defina, muitas vezes é necessário se diferenciar de outros. Não estou falando de segregação abusiva ou de falar mal do outro, mas de uma diferenciação natural: para ser algo, é preciso deixar de ser outra coisa.
Assim, a fofoca faz parte do processo de construção da identidade e dos laços sociais. Pertencer a um grupo frequentemente exige abrir mão de algo, e essa dinâmica, embora desafiadora, é parte fundamental das interações humanas.
Fonte: O Tempo