Segundo especialistas, perdoar não é esquecer, mas soltar o peso do ressentimento
“Guardar rancor é como beber veneno e esperar que o outro morra”. O dito popular é atribuído erroneamente a diversas figuras, como Jean-Paul Sartre, Nelson Mandela, Shakespeare e até Buda. Independentemente de sua origem exata, a metáfora — que resume com precisão o paradoxo do ressentimento prolongado — revela uma verdade incontestável: o principal prejudicado é quem carrega o peso emocional.
O filme "Comer, Rezar, Amar" (2010), dirigido por Ryan Murphy e estrelado por Julia Roberts, aborda o tema de maneira sensível. Adaptado da autobiografia de Elizabeth Gilbert, retrata Liz Gilbert enfrentando mágoas profundas decorrentes de um divórcio traumático e de um relacionamento posterior frustrante. Os ressentimentos contra o ex-marido, a culpa pelas próprias decisões e um vazio existencial a impedem de avançar, resultando em depressão, insônia e perda de identidade.
A narrativa destaca o custo emocional e físico de ruminar o passado sem resolução. A jornada de autodescoberta — pela Itália (prazeres sensoriais), Índia (meditação e perdão interior) e Bali (equilíbrio afetivo) — simboliza o processo de liberação do fardo, enfatizando que mágoas antigas podem ser transformadas em oportunidade de renovação.
Fora do cinema, o rancor também se faz presente. O artesão Breno João Amaral, de 57 anos, está afastado da irmã há uma década. Ele reclama que foi acusado injustamente de um ato que não cometeu, o que gerou uma ruptura definitiva. “Nunca vou tirar essa mágoa, não consigo. Me marcou muito. Agora sou eu pra cá e ela pra lá, pro resto da vida. Já tem 10 anos e está vivo dentro de mim. A partir do momento que eu me afastei, eu estou bem, não me atrapalha em nada”, afirma.
Embora Breno afirme que a separação física permite seguir adiante sem interferências diárias, a mágoa permanece “viva dentro de mim”, demonstrando que o tempo cronológico, por si só, não extingue o ressentimento.
Especialistas corroboram que o tempo não age como agente curativo automático. O psicólogo clínico e escritor Gustavo Cury afirma que “a mágoa não obedece ao tempo cronológico, mas a um tempo emocional subjetivo. Ela não ‘vence’ sozinha”. O mecanismo que perpetua o sofrimento é a reativação constante da memória. “Um sofrimento lembrado é, de fato, atual para a mente e a experiência mental também gera repercussões no corpo”, explica.
Segundo o especialista, as consequências incluem maior risco de ansiedade, depressão, irritabilidade e desgaste fisiológico decorrente do estresse crônico, no qual o organismo interpreta a tensão emocional como ameaça permanente, ativando respostas de luta ou fuga.
Rancorosos
Mas por que algumas pessoas são mais rancorosas do que outras? De acordo com Cury, as diferenças na superação variam conforme os recursos psicológicos individuais. “As diferenças estão menos na gravidade do evento e mais nos recursos psicológicos disponíveis”, observa. Fatores como flexibilidade cognitiva, autocompaixão, autoestima elevada e a capacidade de não fundir a mágoa à identidade facilitam a elaboração. A vitimização prolongada, por outro lado, cristaliza o sofrimento ao manter a pessoa presa à indignação e à espera por reparação externa.
No curto prazo, o rancor pode exercer função protetora. “Ele ajuda a preservar a autoestima, o senso de justiça e a evitar novas vulnerabilidades. Também pode favorecer a ausência de contato com o objeto da mágoa, evitando o estímulo repetitivo e suas consequentes repercussões emocionais. O problema surge quando essa defesa deixa de ser transitória e se torna permanente”, comenta o psicólogo, acrescentando que no longo prazo pode causar rigidez emocional, desgaste psíquico, dificuldades de confiança e empobrecimento das relações interpessoais.
A psicóloga Tatiana Freitas Wandekoken complementa que nenhuma emoção possui prazo de validade natural. Estratégias ineficazes de enfrentamento — como ruminação — esgotam a energia emocional, intensificam afetos negativos e elevam o risco de depressão.
Ela reforça que, corpo e mente não se separam. “Algumas pesquisas sugerem que pessoas que fazem uso habitual da supressão de sentimentos geralmente experienciam menos emoções positivas e mais emoções negativas, têm pior funcionamento interpessoal e relatam menor bem-estar. Quando pensamos nas implicações ‘físicas’ precisamos lembrar que a divisão entre corpo e mente é didática. Na prática, somos um sistema integrado. Tudo que nos afeta emocional ou psiquicamente tem o potencial de afetar nossa saúde física (e muito provavelmente vai)”.
A especialista destaca que diferenças individuais na forma de lidar com a mágoa decorrem de temperamento, clareza emocional, inteligência emocional e tolerância ao desconforto. O rancor pode proteger temporariamente ao evitar riscos, mas, quando crônico, impede uma vida plena.
Perdão: a importância de “deixar ir”
Um exemplo de superação é o da consultora imobiliária Flávia Fonseca, de 42 anos . Ela conta que guardou mágoa por 33 anos da pessoa mais importante da vida dela (a mãe). “Porém, era uma mágoa minha, que ela não tem culpa e nem sabia. Com o tempo, eu me tornando mãe e, depois, avó, eu descobri que tudo que ela me deu foi o melhor que ela tinha. A mágoa se dissipou e hoje sou liberta, tenho paz dentro do coração. Muitas vezes, as pessoas nem sabem que temos essa mágoa, só nós nos sentimos machucados. São quase 10 anos que a gente está muito bem”, comemora a consultora.
O perdão, segundo os especialistas, não equivale a esquecer, desculpar o outro ou restabelecer a relação rompida. Trata-se de um processo interno de mudança na relação com a memória emocional: “deixar ir” o peso do ressentimento, independentemente da postura da outra parte.
“Uma ideia errônea é que o perdão depende de absolver o outro da falta que cometeu. Numa perspectiva mais madura e autorresponsável, entende-se o perdão como um processo interno que tem o outro por objeto mental e não a pessoa em si. Ou seja, o perdão independe do outro e da continuidade da relação. O mesmo serve para a mágoa. Temos a impressão de que a mágoa é uma relação com o outro, mas efetivamente é um processo interno”, analisa o psicólogo e escritor Gustavo Cury.
O primeiro passo prático, segundo Cury, é “assumir a responsabilidade pessoal pelo que acontece. Mesmo que a culpa não seja sua, a responsabilidade pela continuidade da vida sempre é”. Isso envolve nomear a mágoa com honestidade, separar o evento da própria identidade, reduzir a ruminação e recuperar o senso de escolha emocional.
A psicóloga Tatiana Freitas Wandekoken recomenda terapia e reforça a importância da regulação emocional, de forma a “liberar o peso afetivo” sem evitar ou controlar sentimentos. “Todo sentimento tem uma função, todo sentimento pode e deve ser escutado. Dito isso, não fuja do desconforto. Ele é o nosso aliado. Temos uma tendência a nos afastar daquilo que é aversivo, mas não há regulação emocional se evitamos entrar em contato com aquilo que machuca. Não tente lutar contra a emoção, assim como não tente se agarrar nela. Lembre-se que toda emoção vai decair, assim como uma onda”, explica.
Fonte: O Tempo.