Análise da Abrafarma encontrou 1.865 anúncios com ao menos uma irregularidade sanitária ou relacionada às regras da plataforma
Uma análise realizada pela Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) identificou irregularidades em 71% dos produtos encontrados em buscas relacionadas a emagrecimento no Mercado Livre.
O levantamento analisou 2.624 produtos, selecionados a partir de 7.067 anúncios coletados entre 15 e 19 de junho de 2026. Ao todo, 1.865 itens apresentaram pelo menos uma irregularidade. Desses, 912 tinham uma infração e 953 acumulavam duas ou mais.
A análise considerou informações disponíveis publicamente nos anúncios, como textos e avaliações dos consumidores. Os produtos não foram comprados nem submetidos a testes laboratoriais, segundo a entidade.
Os suplementos alimentares representaram 90% dos produtos analisados. Segundo o levantamento, uma das principais irregularidades encontradas foi o uso de promessas terapêuticas, como alegações de cura, prevenção de doenças ou perda de peso em determinado período.
Foram identificadas 1.186 ocorrências desse tipo. Em 22 anúncios, por exemplo, o próprio título estabelecia uma quantidade de quilos que seria perdida e o prazo para isso.
A legislação sanitária não permite que suplementos alimentares sejam apresentados como medicamentos ou tenham alegações de finalidade terapêutica ou curativa.
Também foram encontrados anúncios com promessas relacionadas ao tratamento ou prevenção de doenças, como herpes, câncer de próstata e doenças cardiovasculares.
Outro ponto identificado no levantamento foi a utilização indevida de marcas conhecidas de medicamentos.
Segundo a Abrafarma, 538 produtos apresentavam apropriação ou variações de marcas de terceiros, incluindo nomes semelhantes a Ozempic e Mounjaro.
Entre os anúncios analisados estavam produtos que utilizavam expressões como “Monjauro de pobre” e referências a perda de peso associadas ao Mounjaro.
Os medicamentos Ozempic e Mounjaro, à base de semaglutida e tirzepatida, respectivamente, estão sujeitos a regras específicas de comercialização e exigem retenção de receita nas farmácias.
Além dos suplementos, a análise identificou 51 medicamentos, cremes e adesivos apresentados como suplementos e produtos veterinários contendo substâncias que também podem ser administradas em humanos.
A Abrafarma informou que pretende encaminhar os resultados do levantamento à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Procurado, o Mercado Livre afirmou que não valida nem contesta metodologias de levantamentos realizados por terceiros, mas informou que anúncios que violem os termos de uso da plataforma são removidos.
A empresa também declarou que os medicamentos comercializados por farmácias dentro da plataforma precisam estar regularizados e cumprir as exigências sanitárias.
O levantamento ocorre em meio à discussão sobre a venda de medicamentos em plataformas digitais. A Anvisa notificou o Mercado Livre após a empresa anunciar a venda de medicamentos que exigem receita em seu marketplace e solicitou informações sobre a regularidade da operação, incluindo documentos e procedimentos relacionados à comercialização.
Em agosto, a Anvisa também esclareceu que a revogação de medidas que restringiam a atuação de plataformas digitais não representa autorização automática para a comercialização de medicamentos e que a atividade continua sujeita à regulamentação sanitária.
A agência abriu ainda um processo para regulamentar a contratação, por farmácias, de plataformas digitais para serviços de logística e entrega de medicamentos.