Formada em Ciências Biológicas e mestre em Biofísica pela UFRJ, com pós-doutorado pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, Tatiana afirma que a ciência precisa dialogar com a realidade social (Foto/Reprodução)
A neurocientista brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, 59 anos, passou a ser apontada por colegas como uma forte candidata ao Nobel de Medicina após anunciar resultados considerados inéditos na regeneração de lesões medulares. Pesquisadora e professora da UFRJ, ela liderou por 25 anos uma equipe que desenvolveu a polilaminina, substância que demonstrou capacidade de reorganizar o tecido nervoso e recuperar movimentos em pacientes com paraplegia e tetraplegia. Nas redes sociais, seu nome ganhou projeção nacional, com cerca de 16 milhões de interações em uma semana.
Formada em Ciências Biológicas e mestre em Biofísica pela UFRJ, com pós-doutorado pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, Tatiana afirma que a ciência precisa dialogar com a realidade social. Os primeiros resultados envolvendo a polilaminina foram divulgados em setembro de 2025 e passaram a ser tratados como promissores no tratamento de paralisias.
A pesquisa contou com financiamento da Faperj, estrutura da UFRJ e parceria com o Laboratório Cristália, responsável exclusivo pela produção da substância. A empresa afirma ter investido cerca de R$ 30 milhões no desenvolvimento do composto. Em estudos autorizados por comitês de ética, oito pacientes com lesões medulares graves apresentaram reversão parcial ou total do quadro após aplicação direta do medicamento na medula. O fármaco também foi submetido a testes em animais e validação externa, com resultados positivos.
A proposta inicial prevê a aplicação da polilaminina em pacientes com lesões agudas, ocorridas há até três meses. Em 5 de janeiro, a Anvisa autorizou o início de estudo clínico para avaliar a segurança do uso da substância no tratamento do trauma raquimedular agudo. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, classificou a pesquisa como um possível marco para pacientes e familiares.
Apesar da repercussão, entidades científicas defendem prudência. Em editorial conjunto, as presidentes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Academia Brasileira de Ciências (ABC) afirmaram que questionamentos sobre eficácia e segurança devem ocorrer em fóruns técnicos, com revisão por pares e transparência, evitando judicialização e exposição midiática precoce.
A substância ainda está em fase de testes de segurança, mas decisões judiciais já determinaram seu fornecimento fora dos protocolos de pesquisa. Três pacientes que receberam a aplicação por ordem judicial morreram nos últimos 15 dias. O Laboratório Cristália informou que não há relação entre os óbitos e a proteína.
A Academia Brasileira de Neurologia (ABN) também divulgou nota ressaltando que não existem, até o momento, publicações científicas que comprovem segurança e eficácia da polilaminina em humanos. A entidade reforça que novos tratamentos devem cumprir todas as fases de estudos clínicos antes de serem liberados para prescrição. A Sociedade Brasileira de Neurologia reiterou que lesões medulares exigem abordagem multidisciplinar baseada em evidências robustas e que terapias inovadoras demandam validação rigorosa quanto à segurança, eficácia e indicação.