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O homem que fez o 3º ano primário e chega às universidades como livro

Na edição de hoje, o Jornal da Manhã traz entrevista com o engenheiro e escritor uberabense João Eurípedes Sabino

Thassiana Macedo
Publicado em 01/02/2015 às 16:20Atualizado em 17/12/2022 às 01:37
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Fot Jairo Chagas

Escritor João Eurípedes Sabino fez a biografia de Zote, contando várias histórias de uma figura lendária de Uberaba

Zote não mereceu nenhuma homenagem da sua terra natal, mas sei de conferencistas que em suas consultorias citam o Zote”

Ele, que fez até o 3º ano primário em uma escola que nem era oficial, hoje entra nas faculdades junto com doutores e mestres em forma de trabalho universitário”

O título “Zote que eu vi” não é somente o que João Sabino viu, mas que toda Uberaba viu; fui apenas o veículo para colocar as coisas nas páginas”

Ele era dono das soluções nos momentos mais críticos da vida e era um trabalhador que não conhecia o lazer”

Na edição de hoje, o Jornal da Manhã traz entrevista com o engenheiro e escritor uberabense João Eurípedes Sabino. Membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, ele lançou ontem, em evento no Cine Teatro Vera Cruz, o livro “Zote que eu vi”. Trata-se de uma biografia em homenagem a José Formiga do Nascimento, mais conhecido como Zote. A obra é um relato bem fundamentado que traz revelações sobre essa lendária figura uberabense que viveu intensamente seus 79 anos, vindo a falecer em 17 de julho de 2002 por problemas cardíacos.

Jornal da Manhã – Engenheiro de formação e experiência, o senhor acaba de publicar “Zote que eu vi”. Quem foi José Formiga do Nascimento, conhecido por Zote, e por que escrever um livro sobre ele?

João Eurípedes Sabino – No dia em que o Zote faleceu, eu fui um dos que ajudaram a baixá-lo à sepultura. Jairo Chagas [repórter-fotográfico do JM], de cima do muro do cemitério São João Batista, bateu uma fotografia da comitiva que acompanhava a urna mortuária de Zote. Depois que saí do cemitério fiz um compromiss um dia escrevo sobre o Zote. Escrevi algumas crônicas, até que em 2011 chegou o dia. Apesar de tudo que ele fez e das provocações que ele produz até hoje, Zote não mereceu nenhuma homenagem da sua terra natal, mas sei de conferencistas que em suas consultorias citam o Zote. Ele, que fez até o 3º ano primário em uma escola que nem era oficial, hoje entra nas faculdades junto com doutores e mestres em forma de trabalho universitário. Zote não nasceu num lar abastado, mas isso mudou. Zote está na galeria de benfeitores de Uberaba. Tinha defeitos? Sim. Era santo? Não, mas sabe de alguém que Zote tenha sacrificado ou deixado no prejuízo? Faço um desafio!

JM – Como se deu o processo de elaboração deste livro?

Sabino – Atrás do que escrevo há um cabedal de verdade e comprovação. Apesar de saber muito sobre a vida de Zote, fui pegar depoimentos de pessoas sérias, irrepreensíveis e de conduta ilibada para me informar sobre o que viram. O título “Zote que eu vi” não é somente o que João Sabino viu, mas que toda Uberaba viu; fui apenas o veículo para colocar as coisas nas páginas. Já alerto, tudo que está no livro tem um acervo documental para o caso de duvidarem do conteúdo. E digo mais, o que tem no livro é apenas um centésimo do material que existe sobre Zote.

JM – O senhor o descreve como um “homem dono de outras faces que muitas pessoas não conhecem”... Que faces são estas?

Sabino – Zote era filósofo quando precisava ser, passava por desentendido quando necessário, era extremamente sagaz, era o amigo das horas incertas, não tinha medo de nada e por isso não recuava. Zote tinha uma mente interessante, tanto que quando ele estava sob pressão, você sentia o cérebro dele funcionar em uma velocidade espantosa. Ele era dono das soluções nos momentos mais críticos da vida e era um trabalhador que não conhecia o lazer. Sabia tratar as pessoas e se adaptava às situações como ninguém. Sabia falar com juiz, advogado ou promotor, com os quais usava um português clássico, mas se encontrasse uma pessoa sem cultura, ele já ia dizendo “ô sô”, “nós faz, uai”, “é memo, uai”. Esse era Zote. Essa é a dificuldade de muitas pessoas, pois quando elas têm que se amoldar a uma situação, usa-se dizer que “não têm jogo de cintura”.

JM – Como qualquer livro, artigo ou poema que o senhor já escreveu, esta obra, de certa forma biográfica, tem um objetivo... Qual é?

Sabino – As pessoas quando contam um conto, aumentam um ponto. Senti-me na obrigação de mostrar o Zote na sua origem. Fui ao quarto em que ele nasceu, na igreja onde ele foi batizado. Fui buscar Zote fardado para o Tiro de Guerra e a convocação dele para a 2ª Guerra Mundial. Fui ver Zote dançando nos bailes que raramente ia, conversei com os amigos que dirigiram caminhão com ele, fui saber que Romano Tiveron e João Sabino da Silva – meu avô – avalizaram Zote para que ele tirasse [comprasse] o primeiro caminhão. A partir daí Zote arrancou na vida e nunca mais parou.

JM – E essa história de falarem que Zote vivia sujo?

Sabino – Quando criança, eu descia lá da praça Jorge Frange na minha bicicleta até a Drogasil para comprar sabonete líquido e xampu para o Zote tomar banho em banheira. A foto da capa do livro o mostra com óculos Ray Ban legítimo, de armação dourada e modelo aviador americano. Zote usava sapato de cromo alemão, perfume Lancaster, caneta Parker 51 e relógio de ouro. Ela era um homem requintado. Essa imagem de que ele era um homem que não gostava de água eu estou desmistificando no livro. Mandava fazer as unhas com manicure. Lembro nitidamente das caprichadas mãos de Zote. Então, era preciso mostrar isso, mas chegou uma época na vida que ele percebeu que precisava se despojar de muita coisa, embora continuasse sendo um homem muito exigente.

JM – Além de ser uma figura folclórica da cidade, Zote teve participação importante na vida de muitas pessoas, mas também foi fundamental para o desenvolvimento do município... De que maneira?

Sabino – Existe uma frase célebre a qual diz que se houvesse dez Zotes em Uberaba, ela seria outra cidade. Em Uberaba não existia nenhum empresário que tinha uma frota caminhões específica para buscar gasolina e óleo diesel, e até mesmo combustível de avião. Zote buscava em São Paulo, Santos, Campinas e Ribeirão Preto, e assisti chegarem várias carretas. Daqui, ele distribuía para Uberaba e todo o sudoeste goiano. Olha só o empreendedorismo! Além disso, ele tinha caminhão de carga seca e levava mercadorias para todo lado. De repente, esse homem compra uma empresa com apenas dois ônibus para fazer Uberaba-São Paulo. Em cinco anos, já eram 15 ônibus. Dizem que foi José Augusto Pinheiro, atual dono da Nacional Expresso, que criou a empresa, e não foi. Ela foi fundada por Zote. Quando ele a comprou, chamava Expresso São Luiz, e ele a nomeou de Nacional Expresso porque era fervoroso torcedor do Nacional Futebol Clube. Depois veio a usina, que ele comprou sucateada, mas que depois vendeu em pé para empresa de Sertãozinho (SP). Comprou fazendas e gado nelore com a ajuda de seu braço direito, Genésio Sabino da Silva, meu pai. Como produtor leiteiro, foi primeiro lugar na Copervale, com três mil litros por dia. O mais interessante é que ele começou consertando bicicletas com o pai, Sinomar, e o irmão Geraldo, nunca trabalhou para ninguém, mas recebeu o apoio de seu Osório Adriano da Silva.

JM – O senhor diz que a obra traz grandes revelações, algumas bombásticas sobre Zote, e que ela representa apenas a ponta do iceberg... Que tipo de revelações são estas?

Sabino – Como o livro foi lançado ontem, posso contar. São revelações com relação a procedimentos que ele teve na empresa. Contam aí uma história de que Zote mandou arrombar um cômodo, onde havia documentos para a fiscalização não ter acesso. Eu era menino e assisti a estes fatos. Meu pai tinha uma oficina ao lado, de parede e meia. Vi um policial vigiando o cômodo e um caminhão funcionando na porta, fazendo barulho para que o oficial não ouvisse o que acontecia lá dentro. Cada um conta de um jeito, como se o Zote fosse um estelionatário, mas eu fui atrás de auditores fiscais daquela época, fui atrás do pedreiro que furou o buraco na parede. É que Zote tinha aversão às palavras “taxa”, “fiscalização” e “imposto”, porque 10 anos antes, em 1952, tinha havido uma rebelião no centro da cidade, em que homens bem formados foram aos órgãos estaduais e federais de arrecadação de impostos no centro e arrancaram arquivos e documentos para jogar no córrego da Leopoldino de Oliveira. Eles iam até o correio, mas, antes de passar no Fórum Melo Viana, um tenente da polícia, comandando um pelotão, parou todo mundo na rua Lauro Borges com fuzis preparados. Isto porque o governo só sabia espoliar os triangulinos, cobrando impostos e mais impostos, e o benefício mesmo, nada. Outra revelação é que Zote era colaborador do Partido Comunista. Falei com pessoas que conviviam com ele e que iam até o posto receber ou levar jornal do partido... E muitas outras que, infelizmente, não cabem neste espaço.

 

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