NASCIMENTO DE JESUS

O que as pesquisas dizem sobre a data do nascimento de Jesus

O dia 25 de dezembro não condiz com os fatos históricos sobre a vinda do Nazareno

O Tempo/Ana Elizabeth Diniz
Publicado em 24/12/2024 às 08:56
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Afresco “Nascimento da Criança” foi pintado entre 1476 e 1478 por Sandro Botticelli (Foto/Sandro Botticelli/Reprodução)

Afresco “Nascimento da Criança” foi pintado entre 1476 e 1478 por Sandro Botticelli (Foto/Sandro Botticelli/Reprodução)

Amanhã se comemora o Natal, o nascimento de Jesus. Mas será que Ele realmente nasceu nessa data? Contemplando os relatos dos evangelistas, apenas Mateus e Lucas registraram fatos sobre o nascimento e a infância do Nazareno. “O dia 25 de dezembro é uma data possível para o nascimento de Jesus, mas não provável. De acordo com relato do evangelista Lucas (2:8), na noite do nascimento havia pastores nos campos vigiando os seus rebanhos. Naquela região, os pastores normalmente mantinham as ovelhas no aprisco de novembro até o início de março, para protegê-las da neve ou da chuva”, comenta Lawrence Mykytiuk, PhD em estudos hebraicos e semíticos e professor emérito de biblioteconomia da Purdue University, em Indiana, nos Estados Unidos. 

Outro fato relevante é que “a grama que as ovelhas comiam só era abundante entre março e novembro”. “O fato de haver grama abundante em março coincide com o eclipse lunar ocorrido pouco antes da morte de Herodes, o Grande, estabelecido entre 12 e 13 de março de 4 a.C. Isso é importante porque ele estava vivo e governava quando Jesus nasceu”, diz Mykytiuk. 

De acordo com Mateus 2:1, Jesus nasceu durante o reinado do rei Herodes. “Como há seis Herodes no Novo Testamento, é importante saber qual deles foi. Lucas 1:5 diz que, durante o período em que Jesus nasceu, o governante era Herodes, rei da Judeia. O único chamado simplesmente ‘Herodes’, sem nenhum nome adicional (como Herodes Arquelau, Herodes Agripa e outros), a quem o imperador romano concedeu o título de rei, e que governou a Judeia foi Herodes, o Grande. Os outros cinco Herodes eram seus descendentes”, comenta o estudioso. 

Segundo o historiador judeu do primeiro século Flávio Josefo, “houve um eclipse da lua pouco antes da morte de Herodes, o Grande, e a Páscoa judaica ocorreu logo após sua morte. Como a Páscoa é celebrada na primavera, setembro, janeiro e dezembro estão descartados”, observa o professor. 

E prossegue: “Entre 12 e 13 de março de 4 a.C. ocorreu o eclipse lunar, não muito antes da morte de Herodes, o Grande. Josefo afirmou ainda que teria havido um jejum no dia imediatamente anterior à noite daquele eclipse lunar. O jejum de Ester, costume judaico durante o mês de Adar, mas não mencionado no Talmud, está associado a Purim e, por esse motivo, ocorre em fevereiro ou março”. 

Mykytiuk analisa os períodos em que os registros históricos se deram. “Muitos datam de vários séculos ou mesmo de milênios após os eventos históricos, como o fragmento de Rylands do capítulo 18 de João, datado por vários estudiosos como de 150 d.C. ou mesmo antes, no ano 100 d.C. No entanto, Mateus, o apóstolo, seguiu Jesus aproximadamente durante três anos e meio e, portanto, o conheceu pessoalmente; por isso é considerado ‘dádiva de Deus’, pois relata realmente o que presenciou. Concordo com essa denominação”, defende. 

Já o homem Cristo Jesus foi mencionado como uma pessoa real por escritores não cristãos do primeiro século d.C. e um pouco além. “Entre eles está um dos melhores historiadores de Roma, Tácito, que, sem saber o nome pessoal de Jesus, concordou com o Novo Testamento, chamando-o de ‘Christus’ (‘Cristo’ em latim) porque estava associado ao início do movimento cristão, cujo nome derivou do seu, que foi condenado à morte pelo governador romano da Judeia, Pôncio Pilatos, durante o reinado do imperador romano Tibério. E o movimento cristão começou na Judeia e se espalhou, (para seu desgosto), até mesmo para ‘a cidade’ (ou seja, Roma)”, comenta Mykytiuk. 

E emenda: “Josefo registrou que seu verdadeiro nome era Jesus, que ele tinha um irmão chamado ‘Jacó’ (que, ao passar pelas línguas europeias, estranhamente se transformou em ‘Tiago’ em inglês), que conquistou muitos judeus e também gentios da cultura grega, que os líderes judeus da época expressaram opiniões desfavoráveis sobre ele, que ele foi crucificado e que muitos de seus seguidores permaneceram leais a ele, propagando seus ensinamentos, acreditando que ele lhes apareceu vivo, tendo ressuscitado dos mortos de acordo com as profecias da Bíblia Hebraica (Antigo Testamento)”. 

Data é apenas convenção 

Outro pesquisador que corrobora a visão de Lawrence Mykytiuk é Javier Alonso Lopez, formado em filologia semítica (hebraico e aramaico) e mestre em línguas e culturas do Antigo Oriente Próximo pela Faculdade de Filologia da Universidade Complutense de Madrid. Para ele, o dia 25 de dezembro “nada mais é do que uma convenção para fazer coincidir esse acontecimento com uma data já marcada no calendário pagão, visto que Roma celebrava neste dia a festa do sol invencível”. 

Ele revela que, “embora em alguns lugares se diga que a data se refere ao nascimento do deus Mitra, a verdade é que nenhuma fonte antiga corrobora essa afirmação”. “Não sabemos ao certo quando Jesus nasceu, e apenas Mateus e Lucas trazem relatos do nascimento e da infância do Nazareno”. 

No entanto, segundo Lopez, há vários indícios que permitem calcular uma data aproximada. “Lucas, 1,5-38 e Mateus, 2,1 dizem que Jesus nasceu na época de Herodes, o Grande, rei da Judeia entre os anos 40 e 4 a.C. Mais tarde, Lucas oferece informações contraditórias de seu nascimento com o censo de Quirino, que aconteceu no ano 6 d.C. Talvez tenha sido um recurso do evangelista para explicar por que José e Maria tiveram que deixar a Galileia e ir para Belém”. (AED) 

Narrativas em tom fantasioso 

 Tanto o evangelho de Lucas quanto o de Mateus contêm alguns dados valiosos do ponto de vista histórico. “No entanto, ambas as narrativas têm um caráter claramente mítico, pois pretendem mostrar a figura de Jesus como filho de Deus”, comenta Javier Alonso Lopez. 

Segundo ele, os evangelistas “utilizaram uma série de recursos míticos e literários bem conhecidos no mundo do primeiro século, como as circunstâncias milagrosas da concepção do filho divino, a ameaça de morte em seus primeiros momentos de vida ou a participação de entidades divinas como anjos ou mensagens por meio de sonhos. As duas narrativas devem ser consideradas com muito cuidado se pretendemos tratá-las como fontes históricas”. 

O especialista explica que tanto no judaísmo como no cristianismo existe um tesouro chamado “literatura apócrifa”, que completa, interpreta e reelabora as informações dos livros canônicos do Antigo e do Novo Testamento, mas geralmente lhes confere um toque mais fantasioso. No caso do nascimento e da infância de Jesus, existem inúmeras obras, como o “Protoevangelho de Tiago”, o “Pseudo-Mateus”, “A Natividade de Maria”, o “Pseudo-Tomé”, o “Evangelho Árabe da Infância” ou o “Evangelho Armênio da Infância”.

Fonte: O Tempo

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