General e ex-ministro no governo Bolsonaro foi preso neste sábado por obstrução da Justiça no inquérito que apura suposta tentativa de golpe
Preso por obstrução da Justiça, Braga Netto é acusado também de pressionar Forças Armadas a aderir a golpe (Foto/Fernando Frazão/Agência Brasil)
BRASÍLIA - No relatório que pediu a prisão de Walter Braga Netto, a Polícia Federal apontou que o general e ex-ministro no governo Jair Bolsonaro tinha “destaque” na tentativa de golpe de Estado para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Braga Netto foi preso pela PF neste sábado, no Rio de Janeiro, sob acusação de interferir na produção de provas em um inquérito que apura uma suposta tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
“A atuação de Walter Souza Braga Netto se destaca no contexto dos atos relacionados à tentativa de Golpe de Estado e Abolição do Estado Democrático de Direito, inclusive na tentativa de embaraçamento e obstrução das investigações”, diz trecho do documento.
A Polícia Federal apontou que o general tentou obter informações sobre o acordo de delação do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro. Além disso, destacou que o ex-ministro entregou dinheiro para a Operação Punhal Verde e Amarelo e pressionou Forças Armadas a aderirem à trama golpista.
Em depoimento ao STF, Mauro Cid revelou que Braga Netto obteve e entregou recursos para a operação Punhal Verde e Amarelo, que tinha como objetivo o assassinato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do próprio ministro Alexandre de Moraes. A casa do general em Brasília foi usada ainda como local de reunião pelo grupo que discutia a trama.
“O general repassou diretamente ao então Major Rafael de Oliveira dinheiro em uma sacola de vinho, que serviria para o financiamento das despesas necessárias a realização da operação”, afirmou Mauro Cid, em depoimento.
A prisão realizada neste sábado foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, a pedido da PF e com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República. Além de Braga Netto, o assessor dele, o coronel da reserva Flávio Peregrino, também foi preso.
Além da tentativa de atrapalhar as investigações, Moraes cita provas robustas da participação do ex-ministro do governo Bolsonaro na tentativa de golpe.
“O conjunto de elementos probatórios evidenciaram que o indiciado BRAGA NETTO vem atuando ao longo da marcha investigativa, de forma reiterada e destacada para impedir a completa identificação dos fatos investigados pela Polícia Federal".
"As ações perpetradas indicaram que Braga Netto tentou obter os dados fornecidos pelo colaborador MAURO CÉSAR BARBOSA CID à investigação com o objetivo de controlar as informações fornecidas, alterar a realidade dos fatos apurados, além de consolidar o alinhamento de versões entre os investigados”, acrescenta a PF.
A Polícia Federal citou ainda como prova documento encontrado durante busca e apreensão da na sede do Partido Liberal (PL), em Brasília.
"Além dos elementos anteriormente conhecidos, houve apreensão de documento na sede do Partido Liberal relativo ao acordo de colaboração de Mauro César Barbosa Cid, a indicar que os investigados interpelaram o colaborador, ainda que por intermédio de seu genitor, para que revelasse o teor de seus depoimentos e assegurasse que a participação dos investigados não fosse integralmente revelada".
Em outra frente, a PF destaca a atuação de Braga Netto para pressionar os comandantes da Aeronáutica e do Exército a aderirem ao plano para impedir a posse do presidente Lula.
“Além disso, pelo que consta, Braga Netto participou ativamente na tentativa coordenada dos investigados de pressionarem os comandantes da Aeronáutica e do Exército a aderirem ao plano que objetivava a abolição do Estado Democrático de Direito, praticando condutas voltadas a promover e/ou fomentar ataques pessoais ao General Freire Gomes e ao Tenente-Brigadeiro Baptista Júnior, além de seus familiares”.
Entenda
A PF indiciou 40 pessoas na trama que teria atuado para instaurar o golpe de Estado em 2022. Na lista, além de Braga Netto, estão o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e nomes de seu entorno.
O relatório da PF com as informações foi enviado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes à Procuradoria-Geral da República (PGR), que ainda analisa se oferece denúncia sobre o caso. Caso decida que sim, os indiciados podem se tornar réus.
A casa de Braga Netto, em Brasília, foi usada como local de reunião pelo grupo que discutia a trama. Agentes da PF também descobriram que, em meio à tentativa de golpe, militares das forças especiais do Exército, chamados de "kids pretos", planejaram o homicídio de Lula, Alckmin e Moraes.
Indiciados
Foram indiciados pela PF em 21 de novembro 37 pessoas envolvidas na tentativa de golpe identificada nas investigações. Em 11 de dezembro, mais três pessoas foram indiciadas, completando a lista com 40 nomes. Veja todos abaixo:
Ailton Gonçalves Moraes Barros
Alexandre Castilho Bitencourt da Silva
Alexandre Rodrigues Ramagem
Almir Garnier Santos
Amauri Feres Saad
Anderson Gustavo Torres
Anderson Lima de Moura
Angelo Martins Denicoli
Aparecido Andrade Portella
Augusto Heleno Ribeiro Pereira
Bernardo Romao Correa Netto
Carlos Cesar Moretzsohn Rocha
Carlos Giovani Delevati Pasini
Cleverson Ney Magalhães
Estevam Cals Theophilo Gaspar de Oliveira
Fabrício Moreira de Bastos
Filipe Garcia Martins
Fernando Cerimedo
Giancarlo Gomes Rodrigues
Guilherme Marques de Almeida
Hélio Ferreira Lima
Jair Messias Bolsonaro
José Eduardo de Oliveira e Silva
Laercio Vergilio
Marcelo Bormevet
Marcelo Costa Câmara
Mario Fernandes
Mauro Cesar Barbosa Cid
Nilton Diniz Rodrigues
Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho
Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira
Rafael Martins de Oliveira
Reginaldo Vieira de Abreu
Rodrigo Bezerra de Azevedo
Ronald Ferreira de Araujo Junior
Sergio Ricardo Cavaliere de Medeiros
Tércio Arnaud Tomaz
Valdemar Costa Neto
Walter Souza Braga Netto
Wladimir Matos Soares
Todos foram indiciados pelos crimes de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização criminosa.
Fonte: O tempo