SEDENTARISMO!

Sedentarismo cognitivo: o perigo de "terceirizar" o cérebro

Como manter o cérebro saudável na era da Inteligência Artificial; confira as dicas de especialistas

Paulo Henrique Silva/O Tempo
Publicado em 01/04/2026 às 08:16
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O sedentarismo cognitivo já existia, mas se tornou mais preocupante com as redes sociais (Foto/Divulgação)

A mente também precisa de certos exercícios para se manter sadia. “Da mesma forma que a gente exercita o nosso corpo, precisamos exercitar as nossas capacidades cognitivas e as nossas funções neurológicas no registro da memória. (Se não o fizermos) haverá impacto na nossa memória de trabalho, na nossa capacidade de resolução de problemas e de manter a atenção sustentada”, afirma o dr. Henrique Freitas, coordenador do Serviço de Neurologia do Mater Dei Santo Agostinho.

Um cérebro sem “malhação” é chamado de sedentarismo cognitivo. “É quando a pessoa passa a não fazer mais um esforço mental ou decide terceirizá-lo, usando (em seu lugar) a tecnologia, como a inteligência artificial. Ela delega processos mentais a recursos externos para poupar essa carga cognitiva ou mesmo porque não está disposta a fazer esse esforço mental”, explica o doutor Philipe Marques da Cunha, neurologista da Afya Educação Médica Belo Horizonte.

Da mesma forma que a ausência de exercícios regulares provoca no corpo uma rápida perda da massa muscular (atrofia), da força e da resistência, além de reduzir o metabolismo e aumentar o acúmulo de gordura, o sedentarismo cognitivo “vai gerar um dano, porque, apesar de já nascermos com a nossa memória e a nossa inteligência, é possível aperfeiçoá-las e melhorá-las”, segundo Marques da Cunha. O sedentarismo cognitivo já existia, mas se tornou mais preocupante com as redes sociais.

“A gente está vendo hoje uma combinação de excesso de estímulos, menos atenção sustentada e mais dependência de resposta pronta. Isso preocupa principalmente nos ambientes de estudo, de trabalho, de formação intelectual, já que a evidência de uso de ferramentas digitais pode reduzir esse engajamento cognitivo e favorecer (o uso de) atalhos mentais. Isso em detrimento a esse pensamento profundo”, observa o médico da Afya, que recorre ao exemplo da calculadora, criada em 1623 por Wilhelm Schickard.

“Mesmo com ela, você não deixa de fazer a soma, os cálculos... Mas hoje a calculadora deixou de ser algo importante, com a maior parte das IAs (as inteligências artificiais) generativas fazendo todo o trabalho e assumindo um papel de resolução de problemas. Muitas pessoas têm usado a IA para substituir o pensamento que elas teriam... E isso vai gerar cada vez mais sedentarismo cognitivo e cada vez mais um prejuízo cognitivo para o paciente”, salienta Marques da Cunha.

Henrique Freitas pondera que a maior preocupação está associada a um possível componente de neuroplasticidade. “Se a gente não usa as vias cerebrais, elas acabam não se desenvolvendo. Isso pode impactar o que chamamos de reserva cognitiva. Se a gente não desafiar o nosso cérebro, criamos menos conexões entre os neurônios e isso pode ter algum impacto no futuro”, detalha o neurologista do Mater Dei, deixando claro que a IA se tornou a grande vilã de um cérebro saudável.

“É um processo que já vem desde a popularização da internet, em que as pesquisas são muito rápidas, muito fáceis. Com a IA generativa, muda a maneira de a gente pensar. Isso gera uma passividade, né? Ao invés de tentarmos tirar as nossas próprias conclusões, já acessamos a inteligência artificial prontamente – e ela está acessível no nosso celular o tempo todo”, lamenta Henrique Freitas. A criatividade, de acordo com o médico do Mater Dei, é uma das grandes prejudicadas.

“Uma vez que a as respostas da IA são baseadas no processamento de grandes volumes de dados, elas tendem a ser homogeneizadas e isso pode ameaçar a inovação. Com isso, as respostas vão ser parecidas para várias pessoas e a gente para de ter as inovações que são características do ser humano”, registra Henrique Freitas. Philipe Marques da Cunha também chama a atenção para as facilidades da IA generativa que comprometem a cognição.

“Essa IA realmente faz parecer que está super bem, fazendo um trabalho mental muito importante, mas ela vai deixar cada vez mais as pessoas dependentes. Ela facilita essa dependência mais precoce e mais intensa com risco de enfraquecer a memória, seja a memória executiva, de trabalho, ou a própria autorregulação. Por isso é tão importante usá-la com limite”, analisa o médico da Afya Educação Médica.

Treinamento para diminuir dependência

O que fazer para evitar a nossa dependência da inteligência artificial? Existe algum “exercício”? “Sim. O cérebro precisa de treino de esforço e não só de consumo de informação. Por exemplo, uma das grandes medidas para você evitar um quadro demencial é treinamento cognitivo. Isso se mostrou efetivo. Na prática, ajuda muito reservar momentos sem inteligência artificial, para poder escrever, lembrar, resumir, planejar, decidir por conta própria”, recomenda Philipe Marques da Cunha, neurologista da Afya Educação Médica Belo Horizonte.

“Ler é uma medida muito importante para o treinamento do cérebro, mas ler com atenção profunda, fazendo perguntas antes de buscar as respostas. A atividade física regular também ajuda a manter a cognição, assim como a interação social. Hoje cada vez mais a gente tem se mantido isolado, mais restrito. Ao treinar a nossa função mental, não vamos deixar a inteligência artificial substituir o nosso pensamento”, comenta o neurologista.

O doutor Henrique Freitas, coordenador do Serviço de Neurologia do Mater Dei Santo Agostinho, acredita que ainda vamos aprender muito com a evolução da própria inteligência artificial, avaliando criticamente os resultados gerados por ela. “Vai ser um longo caminho ainda até entendermos que a tecnologia deve potencializar o pensamento humano, mas não substituí-lo”, afirma.

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