REVOLTA

Violência doméstica provoca cerca de 15 internações de mulheres por dia no Brasil

Publicado em 08/09/2026 às 10:00
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Cerca de 15 mulheres foram internadas diariamente no Brasil, entre 2008 e 2023, após sofrerem violência doméstica que resultou em politraumatismos. O dado faz parte de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e publicado na revista científica Ciência & Saúde Coletiva.

Para chegar aos resultados, a equipe utilizou inteligência artificial na análise de 90.798 internações de mulheres entre 20 e 59 anos registradas no Sistema de Informações Hospitalares (SIH) do Sistema Único de Saúde (SUS). A tecnologia permitiu identificar padrões em uma quantidade de informações que seria mais difícil de analisar manualmente.

Segundo os pesquisadores, muitas vítimas chegam aos hospitais com lesões graves semelhantes às observadas em acidentes, como atropelamentos. Nos casos relacionados à violência doméstica, entretanto, os ferimentos podem estar associados ao uso de facas, objetos cortantes e outros instrumentos durante as agressões.

“É um caso de violência que chega como se fosse um atropelamento, um politraumatismo. É absurdo”, afirmou Maria Elisabete Salvador, professora do Departamento de Informática em Saúde da Escola Paulista de Medicina e uma das autoras do estudo.

Um algoritmo de aprendizado de máquina foi utilizado para dividir as internações em nove grupos com características clínicas semelhantes. O perfil mais frequente correspondeu a 17,2% dos casos e reuniu principalmente mulheres de 20 a 29 anos submetidas a procedimentos de emergência após politraumatismos ou ferimentos no tórax provocados por objetos cortantes.

Outro grupo identificado envolveu mulheres entre 40 e 59 anos que foram hospitalizadas após agressões com força física ou objetos contundentes. Já o quadro considerado mais grave representou 5,5% das internações e incluiu casos relacionados a armas de fogo ou envenenamento, com necessidade de tratamento em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e maior risco de morte.

A análise também encontrou relação entre determinadas partes do corpo e os instrumentos utilizados nas agressões. Ferimentos nas mãos e nos punhos, por exemplo, apareceram fortemente associados ao uso de objetos cortantes. Segundo os pesquisadores, esse padrão pode indicar lesões de defesa, quando a vítima tenta se proteger durante o ataque.

Inteligência artificial também foi usada em prontuários

O mesmo grupo de pesquisadores realizou ainda uma segunda análise, ainda sem publicação científica, utilizando prontuários eletrônicos de hospitais administrados pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM).

Nesse trabalho, um modelo de inteligência artificial generativa foi usado para analisar 720 atendimentos de mulheres entre 18 e 64 anos vítimas de violência, registrados entre 2020 e março de 2026.

A ferramenta examinou informações descritas livremente pelos médicos, permitindo identificar detalhes que nem sempre aparecem nos campos padronizados dos sistemas hospitalares, como o objeto utilizado na agressão e a região do corpo atingida.

Em 60,2% dos registros não havia informação sobre o instrumento usado pelo agressor. Entre os casos em que esse dado estava disponível, o soco foi o mais citado, seguido por chutes, facas ou outros objetos cortantes e armas de fogo.

Rosto, cabeça e braços estiveram entre as áreas mais atingidas. A pesquisa também identificou associações entre determinados instrumentos e ferimentos específicos. Agressões com armas de fogo, por exemplo, aumentaram significativamente a probabilidade de lesões no abdômen. Ferimentos provocados por facas e objetos cortantes também foram relacionados a lesões no abdômen e no tórax.

Os pesquisadores encontraram ainda uma forte associação entre violência sexual e lesões genitais.

Notificações apontam cenário de alerta

Um terceiro estudo, publicado na Revista de Saúde Pública, analisou 80.148 notificações de violência contra mulheres de 20 a 59 anos registradas na cidade de São Paulo entre 2013 e 2023.

Diferentemente da pesquisa sobre internações, esse levantamento considerou notificações do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), que também reúne casos que não chegam a exigir hospitalização.

A idade média das vítimas era de 34 anos. Mulheres pretas e pardas representaram 52,9% dos casos registrados. A violência física foi a mais notificada, seguida pela psicológica e pela sexual.

Os homens apareceram como os principais autores das agressões, principalmente cônjuges e ex-cônjuges. O consumo de álcool pelo agressor também esteve relacionado a uma maior ocorrência de violência sexual e física.

Outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores: mulheres grávidas apresentaram quase 2,5 vezes mais chances de sofrer violência sexual em comparação com mulheres não gestantes.

Com o auxílio de outro algoritmo, os pesquisadores projetaram aumento nas notificações de diferentes tipos de violência nos 24 meses seguintes, podendo chegar a 12 casos para cada 100 mil mulheres.

Os autores, no entanto, ressaltam que uma alta nas notificações não significa necessariamente que os episódios de violência estejam aumentando. O crescimento também pode estar relacionado a uma maior disposição das vítimas para denunciar ou à melhora na qualidade dos registros.

Tecnologia pode ajudar a combater subnotificação

Para os pesquisadores, um dos principais desafios no enfrentamento da violência doméstica é justamente a falta de registros completos. A subnotificação dificulta a identificação das vítimas e pode impedir que elas recebam acompanhamento adequado pela rede de saúde.

“A intenção é municiar as equipes de saúde, da atenção primária aos hospitais, com dados relevantes para a tomada de decisão”, explicou o pesquisador André Shimaoka, também da Unifesp.

Os estudos foram financiados pelo Fundo Nacional de Saúde, ligado ao Ministério da Saúde, e acompanhados pelo Departamento de Ciência e Tecnologia da pasta.

De acordo com os pesquisadores, o uso de inteligência artificial permite analisar grandes volumes de informações e encontrar padrões que poderiam passar despercebidos em avaliações convencionais.

A equipe também destaca que a aplicação da tecnologia precisa seguir critérios rigorosos, principalmente por envolver informações de saúde. Por isso, os três estudos utilizaram o HRSP-AI, metodologia desenvolvida pelos próprios pesquisadores para orientar o uso de inteligência artificial em pesquisas de saúde, com medidas voltadas à proteção de dados e às questões éticas.

Para os autores, além de ajudar a compreender o histórico das agressões, a tecnologia pode contribuir para identificar tendências e antecipar cenários, auxiliando na criação de estratégias de prevenção.

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