ARTICULISTAS

Iluminuras e hieróglifos

Os documentos medievais eram uma obra prima de arte. A primeira letra do texto era ornada de desenhos de fina delicadeza e criatividade, muito embora nem sempre seja

Publicado em 23/01/2010 às 00:05Atualizado em 20/12/2022 às 08:32
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Os documentos medievais eram uma obra prima de arte. A primeira letra do texto era ornada de desenhos de fina delicadeza e criatividade, muito embora nem sempre seja, hoje, possível para o principiante ler com facilidade.

O mesmo não se pode dizer dos hieróglifos egípcios. Para nós são desenhos feios e impenetráveis. São muito semelhantes à caligrafia de grande parte da meninada de hoje.

Um jovem, não faz tempo, me procurou comunicando-me que iria submeter-se a um vestibular “na próxima semana” e que não era “bom em redação”. Perguntou-me se era possível ministrar a ele algumas aulas “sobre como fazer uma boa redação”. Tarefa impossível. Mesmo assim, pela insistência, prometi dar-lhe algumas “dicas” para ajudá-lo a se virar. Pedi a ele apenas que me trouxesse uma ou duas redações para que me servissem de base.  Rapaz simpático, de boa conversa e educado. Entregou-me as redações.  Comecei a ler. Melhor, comecei a tentar ler o que estava escrito. Não consegui. Uma letra miudinha, letrinhas agarradas umas às outras. Depois da segunda frase, fui leal para com ele. “Vou ser sincero com você. Eu te reprovaria. Ou antes, qualquer examinador te reprovaria porque não daria conta de ler o que você escreveu”. Ele não se zangou, disse que a letra dele era ruim mesmo, mas estava treinando melhorar um pouco, mas arriscaria assim mesmo. Conversamos mais tempo. Dei-lhe algumas instruções básicas. Tomou notas e agradeceu. “O senhor me ajudou muito, o chato é que acordei tarde demais”.

Por costume e saudosismo incurável, voltei aos meus tempos de ginásio. Tudo era diferente. Tínhamos aulas de caligrafia, com nota no boletim e tudo o mais. Caligrafia (do grego “calós” (bonito) e “grafein” (escrever), a arte de escrever bonito). Nem todos conseguiam o objetivo, mas melhorava muito. Os instrumentos de escrita eram muito rudimentares: penas de metal, tinteiro com tinta azul para molhar a pena e mata-borrão para enxugar. Era uma tragédia. Nossos dedos estavam sempre sujos de tinta, era uma arte de equilíbrio para fazer tudo limpo. Mais tarde inventaram a caneta-tinteiro, mas o tinteiro continuava para abastecer a caneta. Já foi um avanço. Afinal apareceu a famosa caneta “BIC”. Aí, então, uma série de inconvenientes foi eliminada.

Ao mesmo tempo, as aulas de caligrafia foram cortadas.  Ninguém mais ensinou aos alunos a escrever “bonito”, a escrita piorou muito. Transformou-se  em garranchos, em garatujas, além de feias, indecifráveis.

Agora está surgindo outro problema. Nos colégios de nível econômico mais alto, vários alunos possuem laptops (computadores portáteis). Nas aulas, não escrevem mais à mão, tomam notas nos laptops. Não se pode mais falar em caligrafia porque não escrevem mais. Alguns colégios estão exigindo os trabalhos escritos à mão. Os alunos não sabem mais escrever. Em alguns colégios, as provas ilegíveis são anuladas. A garotada, como vive na Internet, está usando linguagem própria, abreviações só conhecidas por eles. Fico pensando, onde vamos parar? Que fazer com essa meninada que não sabe redigir, incapaz de interpretar um texto?

Bem, deve haver gente “importante” pensando nisto e procurando solução. Só não sei se o Lula “sabe”.

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