Chegou em casa com a mão no peito, queixando-se de dor, muita dor. E exclamou alto que foi culpa daquele desgraçado que tanto buzinou por ter se distraído no trânsito..
Leve o desaforo para casa
Chegou em casa com a mão no peito, queixando-se de dor, muita dor. E exclamou alto que foi culpa daquele desgraçado que tanto buzinou por ter se distraído no trânsito. Mas observou: "Também o xinguei de tudo quanto é nome". Afinal, não levo desaforo para casa.
Sua mãe idosa a ele se dirigiu: "Para que enfurecer tanto o coração? Não se pode ter o coração enrijecido sem uma causa nobre real, como na correção de um filho, cuja sanção não é da alegria do sentenciante. Não se pode endurecer o coração, senão quando de dolorosa missão como de suportar internar forçosamente um ente para tratamento por algum mal, como para limpá-lo de droga ou álcool. Coisa desse tipo é que justifica tal situação. Não se pode abusar do coração em vão. Somente se extrema o coração para enfrentar dor que se suporta por amor. Fora isso não. O coração foi feito para o movimento, para lançar vida a todos os pontos, para irrigar de amor, para absorver amor e expandi-lo. O coração é da boa atividade, é símbolo da paixão e da vida. Mas ele é tomado de emoção. Portanto, não enfureça seu coração em vão. Releia uma ofensa recebida, filtre-a na causa e na origem que pode estar na imaturidade ou indiferença do ofensor. Respire, oxigene-se, perdoe tudo que possa, tudo mesmo, não deixe seu coração se sucumbir por falta de expelir amor. Leve o desaforo para casa, e ali o coloque no seu lugar. Dê descarga nele. Não é qualquer coisa que pode atingir sua dignidade. Há tantas diferenças entre os seres. Não espere sempre uma reação uniforme, na medida do seu gosto. Releve sempre que possa, e assim seja mais feliz. Amadureça o coração meu filho. O fruto maduro é doce, não duro". O filho tentou retrucar a lição, mas resolveu absorver e calar. Calar e ficar em paz. Então, sua dor no peito passou.
Ricardo Cavalcante Motta