Era um Machado bem amolado, de cabo forte, avermelhado, de aço reluzente como os olhos
Era um Machado bem amolado, de cabo forte, avermelhado, de aço reluzente como os olhos a observá-lo. Era um Machado de fio fino como navalha. Cortava fundo com golpe irônico, sutil, meio disfarçado. Não era então como o outro de Assis, assim tão Santo, compreensivo. Ria quando percebia correr a seiva de seu corte quando certo ele batia e ela saía como sangria. Marcava dentro, bulindo com a vida, bulindo com a morte, bulindo do azar, bulindo da sorte, bulindo do dia, bulindo da noite, fosse na sala ou na alcova. Seu realismo era cruel, naturalmente se fazia, mas sem ter o gosto de fel. Tombava a mata o tal Machado abrindo clarão na escuridão, abrindo fendas e estradas novas. Expunha a alma, o sentimento, fosse qual fosse o seu tormento. Ainda que dele se quisesse fugir, sem debater, sem se espelhar, por seu bloqueio de se encontrar, vinha o Machado a descascar. É que o Machado nasceu para isso e foi por isso que assim se deu, batendo fino, abrindo fundo. Usava uma pena para avaliar a fenda feita e o efeito de seu talento. Machado mestiço, amigo nobre, cortava rico, cortava pobre. E segue firme, e quem por olhos de ressaca tenta dele se esconder fuga não acha, ele tem sempre o que fazer. Mostrava assim por seu dizer, não adianta trocar a casca se no seu caule o mesmo cerne vai se manter. O homem é que se olhando dentro, no verme em de si, passa tempo, passa tempo e não aprende mesmo a se ver. Machado, Machado, mesmo cético ao social, no pessoal desvenda o corpo, desvenda a mente, para ajudar quem quer crescer...