ARTICULISTAS

Mania de Solidão

Passei a semana inteira reparando como as pessoas se comportam quando entram no ônibus

Danilo Lima
Publicado em 23/12/2011 às 21:03Atualizado em 19/12/2022 às 20:52
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Passei a semana inteira reparando como as pessoas se comportam quando entram no ônibus. Ônibus meio cheio, um calor, alguns lugares vazios, outros ocupados. Pessoas que entram, outras na correria de sair. E eu lá observando tudo, percebi que todos procuravam na verdade um lugar que não estivesse ocupado por ninguém. Não queria a companhia de ninguém. Não queria dividir o espaço, muito menos dizer um singelo e cordial “boa-noite”. Faço o meu próprio jogo. Entra uma moça e pens “Ela vai sentar-se ao lado daquela senhora, ou não. Vai sentar-se ao lado daquele universitário que exibe diariamente seus bíceps”. Errei... lá vai ela, com seus cadernos na mão e sua necessidade de ficar só, para a primeira cadeira, aquela na qual só pode sentar-se uma única pessoa. Os ônibus de hoje têm alguns lugares, de três a cinco, para apenas um passageiro, um erro, pois sendo transporte coletivo é desaforo ocupar todo aquele espaço no qual caberiam dois lugares. Mas, deve ser o olhar atento das empresas atendendo às necessidades de seus clientes, no caso, querer ficar só. Mas a grande questão aqui é o porquê deste distanciamento obtuso entre as pessoas.

Por experiência própria, falo de solidão sem ser mesquinho comigo mesmo. Sempre pensei que ser adulto era viver longe das pessoas de quem gostasse: mãe, família. Enfim, crescer para mim era ter que se distanciar das pessoas que eu amava, uma forma de lidar com a vida adulta, sem ter a quem recorrer, e aprender, aprender mesmo. Hoje digo que solidão é sinônimo de saudades. Até porque, em momentos como estes, as lembranças são as únicas companhias. Elas que te salvam da escuridão que a saudade nos imputa. Sinto falta de minha adolescência, principalmente do convívio com minha mãe, que está viva, morando em outro bairro, mas que por motivos maiores vive em outra casa, com outro marido. Adoraria tê-la por perto, fazendo o jantar ou cobrando se estou indo bem na faculdade, regulando meus horários, mesmo que isso nos causasse muitas discussões, fazendo comentários das novelas ou fofocas de família. Espero viver muitos domingos ainda para comer aquele macarrão que só ela sabe fazer.

Quando falo de saudade, falo de sentimento, de querer estar perto. Quando me pego pensando nisso, é em minha mãe que penso. Ou nos amigos que estão longe, ou que tiveram a sorte de estar namorando e que já arrumaram companhia para aquele cinema, última sessão de domingo, e depois muito papo-furado. Deixaram o amigo aqui pensando nas bebedeiras de solteiros dos sábados à noite.

Tenho muitos amigos, e sei muito bem o quanto sou querido, e sei ainda mais que minha mãe está lá por mim, para o que der e vier. Mas, só aos 20 e poucos anos posso refletir o quanto estar junto de alguém faz falta. A solidão para alguns é um momento de ficar consigo, falar consigo. Hoje, sei que solidão é estar com a luz acesa e sentir-se na penumbra, na escuridão, louco para alguém apertar o interruptor e aquela luz nunca mais se apagar. Aprendi, praticando em dias solitários, que solidão só é bela nos filmes, romances, mas na vida real é bem dura e poucos sabem lidar com ela sem ter que chorar por muitas vezes no divã de um bom psicanalista. Analisemos Aristóteles, que sabiamente profetizou: “Quem encontra prazer na solidão, ou é fera selvagem ou é Deus”.

Eu, como simples mortal, ainda procuro companhia para tudo, até mesmo para uma simples viagem de ônibus coletivo. (*) Estudante de Jornalismo da Universidade de Uberaba

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