ARTICULISTAS

Mensagem de Natal: "a vida é boa"

Nilson de Camargos Roso
Publicado em 23/12/2022 às 19:56Atualizado em 26/12/2022 às 22:59
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Sendo o Natal uma época festiva, onde se comemora o nascimento de Cristo, nosso Divino Mestre, cabe-nos enviar uma mensagem de esperança e de fé, baseada nos princípios da reflexão e da renovação de valores. Nos meus 76 anos cabe mais a citação de fatos positivos que me marcaram ao longo da minha vida. Alguns desses fatos ocorreram com meu pai, um homem simples.

Aos 12 anos de idade, estudou apenas 4 meses, juntamente com seu colega Nassim Miguel Hueb, quando aprenderam a ler, fazer as quatro operações aritméticas e escrever o próprio nome. Sempre se disse feliz, pois “seus filhos eram amigos uns dos outros”. Não era, pois, um erudito, um intelectual e não detinha o conhecimento e o saber. Mas tinha sabedoria. O saber se adquire nos livros e com pessoas que podem transmitir o conhecimento. Já a sabedoria é a capacidade de enfrentar situações difíceis com prudência e harmonia, com condutas inesperadamente corretas, sem qualquer desespero. É fácil inferir que tendo o saber, mesmo com todas as titulações acadêmicas, um professor universitário pode não ter a sabedoria.

1- O primeiro fato ocorreu quando uma irmã de meu pai faleceu, na década de 1970, em Belo Horizonte, na noite de sábado, chegando seu corpo a Uberaba no domingo à tarde. Fui almoçar no domingo com meu pai e minha mãe. Chegando à residência, a mesa do almoço estava posta, mas meu pai estava no quarto, tocando violino. Sentado à mesa, almoçou, mas nada disse.

Voltou ao quarto e continuou a tocar. Naquele momento, na minha pequenez, entendi aquela atitude. Os fumantes, quando alegres ou tristes, buscam o cigarro como companheiro. Idem os alcoólatras, no álcool. Meu pai, quando alegre, gostava de tocar violino. Naquele momento, entendi que ele buscou socorro para sua tristeza, na música, sem demonstrar mau humor ou palavras tristes.

2- Aos 80 anos, apresentou hematúria, o que me fez pensar em doença mais grave. Fui com ele ao urologista, que solicitou exame de urina e raio X da via urinária, pois não havia outros exames. Voltamos para casa, mas meu pai notou que eu estava calado e preocupado. Recebi dele esta pérola: “meu filho, tenho 80 anos, já vivi bastante e estou pronto para receber qualquer informação”. Era alguém sábio, consolando uma “pedra bruta, sem polimento”. Dias depois, veio o diagnóstic cálculo de bexiga, que permaneceu em seu lugar até os últimos dias de meu pai.

3- Aos 87 anos, sofreu uma pequena isquemia cerebral, que nunca lhe tirou a lucidez. Porém, com o avançar dos anos, perdeu a atividade motora dos braços e pernas, sendo necessário colocar em sua boca alimentos pastosos ou líquidos, além de banhos por cuidador. Já com 90 anos, cheguei em casa e ele estava sentado na sua cadeira de rodas, assistindo à televisão.

Perguntei como se sentia. Ele me respondeu: “depois que aprendi a mentir, melhorei muito. Hoje, por exemplo, estou ótimo”. Enfim, nunca o vi blasfemar ou dizer que o passado foi melhor que o presente, pois sabia sublimar as situações negativas, demonstrando bom humor.

4- Ele fumou dos 15 aos 65 anos, o que lhe acarretou enfisema pulmonar nos últimos anos. O tempo passou e o quadro foi se agravando. Quando o levei, na sua cadeira de rodas, à UTI, ao chegar ao seu último leito, ele me olhou e disse: “meu filho, a vida é boa. Você ouviu?” Respondi: “sim, meu pai”. Foi uma inversão de valores, pois o filho médico é quem deveria trazer palavras de conforto ao paciente, e não o oposto, ou seja, um quase moribundo consolando e dando exemplo de comportamento àquele que estava sadio.

Este é um texto que diz respeito às ações de uma pessoa simples. Porém, do ponto de vista hermenêutico, a importância destas ações foram assim interpretadas: 1- a maioria das pessoas externaria seus sentimentos, ao falecer uma pessoa querida (irmã), através de choro e lamentações, enquanto o observado foi o silêncio e a introspecção, associados ao ato de extrema serenidade, tocando violino; 2- mesmo preso a uma cadeira de rodas, recebendo comida líquida ou pastosa colocada na sua boca e incapacitado para tocar seu violino, criou uma situação hilariante ao dizer que “depois que aprendeu a mentir, estava ótimo”; 3- ao ser colocado no seu último leito, na UTI, deu-me a maior das lições: como enfrentar a morte e ainda dizer “a vida é boa”.

Feliz Natal a todos.

Nilson de Camargos Roso

Doutor em Anestesiologia, professor aposentado pela UFTM

n.roso@me.com 

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