ARTICULISTAS

Mentira tem pernas curtas

Nilson de Camargos Roso
Publicado em 11/11/2022 às 20:44Atualizado em 15/12/2022 às 23:27
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O colega médico Dr. Aziz Miguel Hueb, falecido há cerca de duas décadas, era um excelente profissional. Como era comum nos tempos mais remotos, exerceu simultaneamente a oftalmologia e a otorrinolaringologia. Sabia conviver com habilidade e competência em ambas especialidades, fato de difícil compreensão nos dias atuais. Era um verdadeiro aglutinador de ideias e de pessoas, além de manter sempre um excelente humor. Este preâmbulo é necessário, pois o fato abaixo relatado foi a mim narrado por ele, que se formou em 1952 na antiga

Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, hoje incorporada à UFRJ. Disse-me ele que um dos seus colegas de turma foi se especializar nos EEUU. Não me lembro em qual cidade e em qual especialidade. Naquela época, falava-se apenas em especialização médica, embora William Halsted criasse o primeiro programa de residência médica (1889), no departamento de Cirurgia da Universidade John Hopkins. Este brasileiro, colega de turma do Dr. Aziz, estava nos EEUU há alguns meses, juntamente com outros colegas médicos de diversos locais do mundo.

Certo dia, o chefe do Serviço onde ele estava convidou os médicos que estavam inscritos no programa de especialização para todos irem à sua residência no fim de semana, pois haveria uma festa da família. O chefe zelava muito pela integração entre os professores e os alunos e a festa iria melhorar ainda mais este relacionamento. Porém, este brasileiro se esqueceu de comparecer à festa e, na segunda-feira, procurou justificar o seu não comparecimento à moda dos brasileiros, dizendo que não pôde comparecer, mas que justificou enviando um telegrama.

O chefe respondeu que não recebera o telegrama. O brasileiro reiterou que enviara o telegrama. Certamente, ocorreu o que nós, brasileiros, não esperávamos: o americano foi aos Correios verificar por que não recebera o telegrama. Para sua surpresa, constatou que nenhum telegrama fora enviado. O chefe procurou o brasileiro e disse: “uma das instituições mais sérias que temos em nosso país é o Correio. Assim, o senhor está convidado a deixar o nosso serviço”.

Conclusã na nossa visão de brasileiros:

1- não teríamos ido aos Correios verificar a veracidade do telegrama enviado; 2- caso fôssemos, certamente daríamos uma advertência àquele que não teve compromisso com a verdade; 3- esta divergência de conduta se baseia na diferença cultural de dois povos, baseada em diferentes usos e costumes. Os críticos mais severos diriam que a conduta tomada pelo americano está diretamente ligada ao compromisso com a verdade e com a moral, independentemente de o ato cometido ter sido de maior ou menor gravidade. Foi por fato semelhante a esse que o então presidente americano Henry Nixon renunciou, pois mentiu em cadeia de rádio e televisão, dizendo que desconhecia o fato de o seu partido político ter invadido o comitê do partido adversário. Perdeu a credibilidade popular, não sobrando outro caminho a não ser a renúncia. Em contrapartida, no nosso Brasil de hoje, com o Poder Judiciário em pleno ativismo político, negando suas finalidades exigidas pela Constituição e afastado do sentimento popular, observamos uma distância de anos-luz da conduta moral americana para a brasileira.

Nilson de Camargos Roso

Doutor em Anestesiologia, professor aposentado pela UFTM

n.roso@me.com

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