Numa roda de uberabenses no calçadão da rua Artur Machado, na última semana, o assunto que rolava não era nada agradável. Falavam sobre alguns crimes (famosos) aqui ocorridos e os culpados jamais foram descobertos.
Comparando-os a um grupo de mestres, pareciam filósofos a expressar suas teses, que na frente desaguavam na famosa frase: O que é malfeito sobre a Terra um dia será descoberto.
Lembrei-me em seguida de um homicídio ocorrido aqui nessas bandas quando o carro de boi dava as cartas. Fazendeiro "forte", mantendo um romance oculto com a mulher do empregado, cismou de dar um fim ao inocente para poder "navegar" tranquilo na cozinha alheia. A coisa havia sido descoberta e, sabendo que dor de marido traído dói a vida inteira mais seis meses, o mais fácil era matar quem nada devia.
Jagunço contratado, preço e local da morte combinados, o patrão arrumou um roçado numa vargem distante para ser feito e mandou para lá o empregado. Ia cedo e voltava com o sol descendo no poente.
No terceiro dia de trabalho chega por lá o algoz que, para surpresa da vítima, era seu amigo. Depois de hora conversando, beberam água na mesma vasilha, baforaram juntos uma palheta e aí vem a surpresa: - Clemente, estou aqui para lhe matar. Fulano de tal empreitou-me para isso e sua hora chegou.
- O que é isso, Tavares! Eu tenho filhos pra criar..., esposa pra cuidar... Não faça isso! Disse o indefeso homem.
Depois de súplicas e mais súplicas em nome de Deus, beijos nos pés do matador sem a mínima chance, afloram daquela alma pura estas palavras: Você fazendo isso comigo, quando descobrirem, não terá mais sossego e pagará na prisão. Deixa disso... Ora, disse o assassino, quem irá descobrir se por aqui não há ninguém? O pistoleiro estava aflito para terminar o serviço e acrescentou: Vou lhe enterrar aqui mesmo junto ao tronco dessa árvore tamboril.
Olhando para o firmamento, com lágrimas por toda a face, Clemente pediu um minuto apenas para mostrar algo ao seu assassin Esta nuvem de mosquitos pólvora que está sobre nossas cabeças será a testemunha. Abriu a camisa e ordenou: Atire! Trinta e oito descarregado, enterro feito ali mesmo e começa a correr o tempo. Ninguém jamais teve a menor pista sobre o sumiço de Clemente.
Trinta anos depois, num domingo de calor, Tavares (o jagunço) deitado sobre o colo da mulher na varanda de sua casa, eis que de repente uma nuvem quase imperceptível de mosquitos pólvora começa a sobrevoar os dois. Mal-estar, prurido, inquietação, tudo, enfim, atacou o então homem do gatilho.
Levantou-se, andou, bebeu água, assentou e causou espanto na mulher. A uma pergunta dela ele respondeu: - Por toda a vida ocultei de você um segred Eu matei Clemente. Esses mosquitos parecem até que estavam no dia em que lhe tirei a vida. A esposa nada sabia, mas dali pra frente o mundo inteiro ficou sabendo, inclusive o nome do mandante.
Deus coloca ou não uma testemunha na hora do crime?
(*) presidente do Fórum Permanente dos Articulistas de Uberaba e Região e membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro