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O burrinho do olho azul

Era um fazendeiro que tinha um capricho, gostava de domar seus bichos, burro brabo

Ricardo Cavalcante Motta
Publicado em 21/07/2018 às 18:39Atualizado em 17/12/2022 às 11:40
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Era um fazendeiro que tinha um capricho, gostava de domar seus bichos, burro brabo de preferência. Dizia que domador de cavalo manso é fácil encontrar, quando o animal cede à doma. Certa feita, nasceu de uma égua pampa, com algumas partes albinas, um lindo burrinho com um olho azul. Resolveu. Com esse vou especialmente caprichar na doma. O burrinho, bem zelado,  foi crescendo no pastinho ao lado vendo o trabalho de doma de seu dono. Pensou o burro. Em mim ninguém monta! Até que chegou o dia de ser domado. Carinhoso no trato, na era correta, o domador iniciou a doma do burrinho. Mas de todo jeito que agia o burrinho reagia recusando a doma. Quando o domador menos esperava vinha o burrinho tentando atirá-lo ao chão. Virou uma disputa. Foi indo até que o domador concluiu que em alguma hora a coisa aconteceria, caía, machucava feio e de fato sucumbia. Não podia ele ser tão teimoso como o astuto burrinho do olho azul. Tinha sim que ser inteligente como gente, saber perder. Largou então o burrinho no pastinho. O burrinho, já gordinho, pensou ter vencido a parada com o domador. Mais uma vez o domador tentou; em vão de novo. Então veio à sua mente vender o lindo burro do olho azul, passar para frente. Omitisse o defeito, seria fácil pela beleza do bicho. Honesto, recusou aquela ideia desleal. Com aquele defeito, seguramente machucaria alguém. Certo dia chegou à fazenda um caminhão e neste o burrinho foi embarcado. O teimoso e esperto burrinho, que dali nunca até então saíra, ao afastar do caminhão foi vendo sumir a paisagem da fazenda, sentindo-se perdido pela distância ao rodar do veículo. Seu olho azul brilhou de aflição, e o outro olho de tristeza. Buscava já ao longe o carinhoso dono, perguntava-se onde ele estaria. Na fazenda, o ajudante do domador a este questionou para onde tinha enviado o lindo burro do olho azul. A resposta foi sumária, triste, curta e seca. "Mandei para o abate." E assim se encerrou a estória do sabido e lindo, mas teimoso, burrinho do olho azul...

(*) Juiz de Direito

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