Centroavante é uma palavra bonita. Centro quer dizer ponto para onde se convergem as coisas. Nele existe uma tendência natural para a posição de repouso...
Centroavante é uma palavra bonita. Centro quer dizer ponto para onde se convergem as coisas. Nele existe uma tendência natural para a posição de repouso. Pode ser também o espaço central da cena, um personagem típico que representa pessoa de idade avançada e com experiência de vida, objeto de todas as atenções. No futebol, vaidoso, o centroavante pensa ser o centro do universo. É o jogador que, no sistema clássico de cinco atacantes, ocupa a posição central entre o meia-direita e o meia-esquerda. É o jogador que se desloca pelo centro do seu campo de ataque. Este é o verdadeiro centroavante. No início da minha carreira como jogador juvenil do Nacional, já tinha comigo alguns fundamentos. Um deles é que, para qualquer time de futebol sair vitorioso e o gol acontecer, é necessário ter um atleta diferente dos demais, sendo este o ponto para onde a bola deve se convergir. Ele tem a missão de definir, marcar o gol ou perder o gol. Além disso, será também referência para o torcedor, por quem será sempre idolatrado. Acontece muito de esse jogador estar em posição de repouso durante o jogo. É comum o narrador dizer: o centroavante estava dormindo (repousando) dentro da pequena área e perdeu mais uma boa oportunidade de fazer o gol. Ou ainda: “fulano estava no centro da área e não deu conta de finalizar; o gol não saiu”. No início de um campeonato, na montagem de qualquer equipe, o grupo de jogadores contratados deve ter por obrigação o chamado centroavante matador. Ele tem que ser mais velho e ter bagagem que entendemos como experiência. Sendo ele o centro da atenção do jogo, na cabeça do torcedor é o cara que vai roubar a cena. Fazendo ou não o gol, será o mais procurado para entrevistas, após os jogos. No futebol, essa posição tem uma escrita. Para ser homem de área, tem que ser gordinho, pra não dizer obeso. Hoje, no futebol brasileiro, temos o exemplo do Obina e do Fenômeno. Obina, ultimamente, sente a falta de gols. Mesmo não sendo batedor de penalidades, dias atrás, Cuca, treinador do Flamengo, procurando ajudá-lo, autorizou a experimentar uma cobrança. Obina errou, mas continua recebendo um carinho muito grande da torcida flamenguista. Ronaldo, o Fenômeno, se emagrecer para entrar no peso ideal tão cobrado pela imprensa, parece que vai fazer também um jejum de gols. Não será surpresa se, daqui a alguns dias, ouvirmos alguém dizend “Ronaldinho está muito magro, o regime imposto a ele pelo Corinthians não lhe está fazendo bem. Aconselho o fim da abstinência de arroz e feijão para que o craque retome a fartura de gols”. Se isso acontecer, os fanáticos torcedores vão gritar: “Ronaldo é nosso rei”. Interessante isso. A torcida gritando Ronaldo é nosso rei, sendo que ele nunca tinha entrado no Parque São Jorge. Creio que, perguntado se já tinha ouvido falar em Vicente Matheus, mesmo com toda a simpatia da qual é merecedor, ele não saberia responder. Apesar disso, o secretário Karim Abud, meu amigo corinthiano, faz uma projeção audaciosa para o Timão. O clube será campeão paulista, campeão brasileiro e disputará e ganhará a Copa Libertadores. Com isso, Ronaldo voltará para a seleção do Dunga, que será campeã do mundo em 2010. No fim deste ano, o Coringão, com Ronaldo, será campeão do mundo no Japão. Karim, o sonho é Fantástico, mas tenho medo de que seu Corinthians tenha se esquecido das categorias de base. É nelas que aparece a maioria dos novos talentos do futebol. Se isso acontecer, os holofotes vão refletir apenas em Ronaldo. Aí, em 2011, o Fenômeno, com certeza, deixará o clube, para satisfazer o ego de um algum bilionário presidente de clube estrangeiro. Vai voltar a mostrar seu talento na Europa, juntamente com todos os atletas da seleção estrangeira do técnico Dunga. E ainda há pessoas que acreditam que a Lei Pelé foi uma boa para o futebol brasileiro. Será? Tenho duas considerações a fazer: 1) O USC, na gestão de Valtinho Barbosa, só tinha jogadores de primeira linha com contratos de até dois anos (vinculados ao time), crédito na praça, dinheiro em bancos e, aos domingos, nos jogos do Brasileiro aqui, no Uberabão, com chuva ou sol, com TV ou sem, com cobertura ou sem, um público em torno de 15 mil pessoas pagava ingresso. No time estavam jogadores da cidade e região, como Diron, Celso Roberto, Marquinhos, Aldeir, Fabinho, Tonho, Paulo Luciano, Naim e Luiz Carlos Bica e Binga. Os estrangeiros eram Alexandre Pimenta, Celso Sá, Dílson e Ney, que aqui jogaram por 4 ou 5 temporadas. 2) Jornais do Rio de Janeiro noticiaram recentemente que o centroavante Fred, hoje no Fluminense, abriu mão do alto salário na Europa para vir novamente resgatar seu nome no futebol brasileiro. O mesmo já havia acontecido com o maior ídolo do Vasco, Roberto Dinamite. Gostaria de estar errado sobre o que agora escrevo. Acredito que a posição de centroavante, o homem de área ou de referência, ou, como queiram, o matador, logo acabará banida do futebol, se continuarmos com estes esquemas numéricos (4/3/3, 4/4/2 e 4/5/1), onde os treinadores que não tiverem curso superior em matemática exata correm o risco de fazer sobrar ou faltar camisas nos vestiários. Principalmente nos times intermediários, que têm treinadores medrosos. Nesses times, o homem de referência deverá usar uma camisa 9, mas com o número de cabeça para baixo.