No auge da fama havia até ocasião de chegar aos lugares de acesso público tentando se disfarçar...
No auge da fama havia até ocasião de chegar aos lugares de acesso público tentando se disfarçar para ter sossego e privacidade. Os admiradores não davam tempo, queriam autógrafos, fotografias. Houve ocasião até em que já se sentiu enfadado pelo preço da fama. Hoje nada disso existia mais. Passou a fase de sua música, que excitava corações. Agora, o apelo explícito era para outras excitações com expressões chulas e vulgares. Sentia falta da fama, do reconhecimento, dos shows, diminuídos ao nada. A esta altura, já não aceitava mais cantar em bares para pessoas dispersas e distantes da sua canção. Sofria pelo ostracismo, que o foi levando à depressão. Sabia de muitos outros seus pares que perderam para a droga, se entregaram ao álcool; até suicídio acontecia. Sentia a aflição por um reconhecimento, uma homenagem qualquer que trouxesse a sensação do prazer do auge da fama que tanto afagava seu ego. Houve tempo em que ousou se imaginar perene, mas a realidade é outra. As folhas caem para que outras venham, as flores se vão para novas primaveras. Seu período de primavera passou. Constatando isso, reagiu. Como não podia largar do seu pinho, feito à mão, com seu nome gravado, que ganhou em homenagem quando no topo, mesmo sem plateia, continuou a compor e cantar, como fazia ao tempo inicial de sua carreira, quando sonhava com o êxito. Sempre prestigiava o amor, o coração, a emoção sentimental. Repetia o feito insistentemente até que encontrou de alguém a atenção absoluta para o seu trabalho; a atenção de si mesmo. Ao notar, passou a caprichar no canto, na composição, no tocar. Embora não mais vendesse nada, continuava cantando para si. Recuperou-se. Assim, seguiu em paz. Deu-se o direito, ao que antes resistia, de ser fã de si mesmo. Sim, cantava para si. Timidamente, reencontrou-se. Tornou-se fã de si mesmo.
(*) Juiz de Direito