Em quase todos lugares há "doidos" pelas ruas. Sempre com manias excêntricas próprias e que geram comentários hilários das pessoas. Naquele local havia um que tinha uma mania bem especial. Mantinha-se por todo o tempo atrelado a uma velha lata, tipo de tinta ou óleo de cozinha, 18 litros. Nela improvisou uma alça de arame. Ele conversava com a lata até a acariciava como se tivesse vida. Recebeu por isso o apelido público de "O Homem da Lata". Todos notavam sua estreita ligação com a tal lata, mas ninguém jamais se ocupara dos seus motivos. Ironizavam simplesmente, afinal era um mendigo largado. Pouco importava se o seu apego à lata fosse mera posse material ou transferência psicológica de alguma afeição, ou posse por afeto, comum nas pessoas que têm mais sentimento de domínio que de amor, ou o que fosse. O certo é que, cientes dos laços do homem com a lata, alguns rapazes, voltando da farra, atraíram a atenção do homem, enquanto outros rapidamente jogaram sua lata do outro lado de um muro, sem que ele visse. Logo, não encontrando sua lata, o homem ficou de fato enlouquecido. Corria de um lado para o outro à procura de sua lata, vasculhava aflito tudo que podia. Já estava em pânico quando um observador lhe indicou onde estava a lata. Ele escalou o muro como um lagarto e deu com o outro lado, resgatando a amada lata, voltando aliviado ao seu mundo, muito grato ao informante. Restaurada a paz, foram embora, cada um levando a sua lata invisível. Alguns levaram sua lata com o peso da busca do vil metal, outros com sua mágoa sentimental, outros com a lata simplesmente vazia, alguns até lamentando não terem lata. Havia os que precisavam diminuir o peso de suas latas, outros de adicionar conteúdo às suas. Havia até os que ainda precisavam abrir a própria lata. Mas o pior é que a grande maioria não tinha sequer consciência do que ou do porquê de sua própria lata!