ARTICULISTAS

O homem invisível

Publicado em 07/12/2015 às 23:24Atualizado em 16/12/2022 às 20:58
Compartilhar

A mão suja segura um boné imundo. As vestes também têm rastros da poeira do asfalto e ainda tem-se a impressão de esta poeira estar nas entranhas.

O Olhar perdido no espaço é, ao mesmo tempo desconfiado, e revela também a alma de quem deixou de ser visto e passou a ser um homem invisível.

Ele pede esmola, moeda, pão, mão e atenção. Uma família passa. O pai puxa para si o filho de seis anos, como forma de impedir uma aproximação humanizada entre aqueles dois seres.

De que esse pai tem medo? Do homem invisível? Da aproximação de dois seres tão diferentes e “incompatíveis”? Ou de conhecer a real história de um ser que tem as mãos vazias de afeto, embora as mantenha constantemente estendidas?

As perguntas e possibilidades de respostas são inúmeras, ainda mais quando a placa no sinaleiro faz um alerta (ou da uma ordem): não dê esmolas. Dê oportunidades!

Que oportunidades? Se todos os direitos básicos desses cidadãos lhes são negados e, por isso, a mão precisa continuar estendida à espera de que os vazios sejam preenchidos?

Para muitos apenas um andarilho, um mendigo, um pedinte, um drogado, um marginal... Na verdade, o dono da rua, da praça, da calçada.

À margem da sociedade, o homem invisível faz parte do cotidiano das cidades, mas ainda assim ele não é visto. É uma sobra de quem se perdeu em busca de si. E o que restou foi o asfalto.

Assim como ele há milhares no mundo. Dezenas espalhados em nossa cidade (quase duzentos moradores em situação de rua, segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento Social de Uberaba).

Mas essa matemática social não condiz com que nossos olhos captam em alguns pontos da cidade, afinal isso se deve a inúmeras variáveis.

Casas de apoio e de passagem. Albergues. Políticas Públicas. Alternativas que, muitas vezes, não solucionam o problema, apenas o transferem para alguns quilômetros adiante.

É preciso coragem para acordar todos os dias e seguir o script da vida de cabeça erguida. É preciso seguir a loucura do mundo, mesmo que o rosto alterne expressões de choro, de riso e de desesperança; quando já se perdeu a conta do tempo que se aluga a rua; quando já se perdeu a certeza de que é possível reverter tal situação; quando não se leva em conta a opção de voltar pra casa.

Independente das causas, é preciso que a dignidade, a autoconfiança e os direitos básicos sejam resgatados, a fim de que seja recuperada a consciência do seu papel como cidadão e parte da história.

Afinal, o homem invisível busca seu espaço e valor. Chama a atenção para si, mesmo quando as cortinas ainda estão fechadas e os holofotes apagados. É um homem real, que faz parte do espetáculo da vida, mesmo que, às vezes, a cena que interpreta cause indiferença, tristeza e indignação.

(*) Michelle Rosa

Jornalista

Assuntos Relacionados
Compartilhar

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

JM Online© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por